Palavra e diaconia: fundamentos para o crescimento da igreja – At.6.1-7

Carlos del Pino
série Caminho missionário da igreja

A instituição do diaconato, narrada em At 6.1-7, está intimamente relacionada com a murmuração surgida entre os judeus de tradição grega (helenistas) que haviam se convertido ao cristianismo contra os judeus nativos (hebreus) devido ao “esquecimento” destes em relação às suas viúvas durante a distribuição diária de alimentos. Parece claro, aqui, que os judeus nativos assumiram o controle dessa distribuição de alimentos e, propositadamente, estavam discriminando as viúvas de fala grega. Dois grupos distintos de judeus se converteram: os nascidos e criados na Judéia (raça pura, pedigree!) que se consideravam naturalmente superiores e detentores da administração eclesiástica, e os nascidos fora da Judéia (estrangeiros contaminados!) que não mereciam o devido respeito e amor.

Esse conceito, não cristão, de superioridade racial foi levado para dentro da igreja junto com os convertidos. Parece que ainda não haviam se convertido totalmente! Observamos no v.1 que a discriminação e a murmuração ocorreram como conseqüência direta do crescimento numérico da igreja. Diz o texto: “ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração…” O volume de pessoas que estavam se convertendo e aderindo à igreja parece haver sido mais rápido que a capacidade da liderança de discipular os novos na fé. Portanto, estamos diante de um problema de ordem missiológico. E como foi que a igreja procurou resolver esse dilema? A resposta que encontraram foi associar o crescimento da igreja (missão) com a diaconia e com o ensino da palavra de Deus. Vejamos de forma mais clara como isso foi feito.

1. Antes de mais nada, os irmãos da igreja em Jerusalém reconheceram que havia surgido um problema derivado do crescimento da igreja. Na verdade, a forma direta como o texto descreve a situação demonstra que eles não estavam tão iludidos, como muitos de nós, com o grande sucesso numérico do crescimento. Ao contrário disso, a clareza com que o v.1 descreve a murmuração e as dificuldades de relacionamento entre os dois grupos de convertidos aponta para o reconhecimento da dificuldade surgida, bem como para sua disposição em buscar a solução adequada para aquele conflito.

2. Observamos, ainda, a preocupação manifestada pelos doze apóstolos quanto a necessidade de priorizarem o ensino da palavra de Deus (v.2). Eles sabiam muito bem que todos aqueles novos irmãos precisavam receber urgentemente um sólido ensino da palavra de Deus para terem seus antigos conceitos transformados e poderem, assim, viver um cristianismo crescente em suas próprias vidas. Os doze sabiam que o crescimento numérico não deveria ser a única dimensão da igreja a crescer. Sendo assim, eles não podiam abandonar o ministério do ensino da palavra de Deus para servirem às mesas.

3. Os doze apóstolos, por outro lado, estavam cientes que servir às mesas (diaconia) era um ministério que deveria ser igualmente enfatizado e realizado pela igreja. Por isso mesmo, no v.3 os vemos orientando a “comunidade dos discípulos” (v.2) a escolher aqueles irmãos que deveriam se dedicar à diaconia na mesma proporção em que eles se dedicariam à oração e ao discipulado na palavra de Deus (v.4). O ministério diaconal foi visto de forma tão séria que os diáconos eleitos pela comunidade deveriam demonstrar qualificações para esse ofício: “boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria”. Essas qualificações apontam para um testemunho cristão genuíno e para uma espiritualidade verdadeira e profunda.

4. Diante disso, notamos que a diaconia não pode ser considerada como mera filantropia, nem deve ser reduzida a projetos e metodologias altamente ativistas e pragmáticos; antes, a diaconia é vista em associação com o ensino da palavra de Deus. Isso nos mostra que a ação diaconal é, fundamentalmente, uma forma concreta de proclamação do evangelho, ou seja, a diaconia é uma das dimensões da vida da igreja em missão, da mesma forma como a proclamação verbal também o é. Sendo assim, o legítimo crescimento da igreja em todas as suas dimensões, inclusive a numérica, exige que a ação diaconal que demonstra o amor redentor de Cristo através do alívio das diversas forma de sofrimento humano esteja, necessariamente, associada à proclamação do evangelho e ao ensino da palavra de Deus visando a transformação e a solidificação da fé dos crentes.

5. Ao ler o v.7 nos deparamos com o resultado produzido pela associação entre ação diaconal e ensino da palavra de Deus no contexto do crescimento da igreja: a palavra de Deus se espalhava e o número dos discípulos crescia mais rapidamente que antes. Ao comparar o v.1 com o v.7 notamos uma significativa diferença causada pela associação da proclamação e ensino da palavra de Deus com a ação diaconal concreta. Enquanto que o v.1 registra a multiplicação do número dos discípulos e a conseqüente murmuração surgida entre eles, o v.7, por sua vez, além de não mencionar a murmuração, mostra que a palavra de Deus crescia e se espalhava, o numérico de conversões continuou crescendo rapidamente e um elevado número de sacerdotes judaicos, que anteriormente temeram assumir a fé em Cristo (Jo 12.42), agora “obedeciam a fé”, o que indica que a ação missionária exercida pela igreja afetou diretamente a dimensão religiosa da vida em Jerusalém. Do v.1 ao v.7 houve, portanto, um desenvolvimento visível no crescimento numérico, na amplitude da esfera ministerial, no aprofundamento conceitual, teológico e missiológico, na saudável promoção diaconal, na necessária associação entre palavra e ação e na abertura do ambiente religioso popular como campo missionário.

Obviamente, esse quadro nos leva a valorizar o crescimento integral (todas as dimensões) da igreja como um elemento fundamental na missão, a tal ponto que já se torna impossível falar de crescimento da igreja em outros termos. Diante disso, já não podemos mais perguntar se a igreja está crescendo (se não estiver, seria ela um organismo vivo?); antes, devemos perguntar sob que fundamento ela está crescendo. Simplesmente crescer não satisfaz mais, a não ser que esse crescimento se dê por uma clara associação entre o discipulado e o ensino profundo e transformador da palavra de Deus com a concreta ação diaconal que alivia o sofrimento humano como demonstração do amor de Cristo. Portanto, é fundamental buscar e investir, ao mesmo tempo, no crescimento de todas as dimensões do ser e do viver da igreja de forma relevante ao contexto brasileiro em que estamos inseridos. É somente a partir desse crescimento integral que poderemos alcançar o mundo todo, em todas as dimensões da vida humana, anunciando o evangelho com palavras e obras.

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