Pastoral e missão: dois ministérios distintos ou realidades que pertencem uma à outra? – At 14.1-26

Carlos del Pino
Série Caminho missionário da igreja

Em Atos 14 encontramos a continuação do relato da primeira viagem missionária de Paulo e seus companheiros. Sendo assim, podemos considerar que este relato mantém-se dentro do roteiro geral que norteia os dois capítulos anteriores, ou seja, “a palavra de Deus continuava a crescer e espalhar-se” (At 12.24; 13.49). Dessa forma, vemos que o tema mais amplo que dá sentido a toda a narrativa da primeira viagem missionária continua sendo o do crescimento da palavra de Deus. Mas este roteiro geral parece significativamente ampliado no capítulo 14 ao associar à pregação evangelística da palavra, tanto o empenho pastoral do apóstolo, bem como o cuidado imprescindível que deve ser dispensado ao rebanho, seja por meio do discipulado, seja através da organização da comunidade de fé (a eclesia).

Estes dois temas, a evangelização e o pastoreio, passam a andar juntos na vivência ministerial de Paulo como fruto, inevitável, de sua própria perspectiva teológica. Observamos a associação entre o pastoreio e a evangelização e missão como um elemento que compõe o mesmo empenho ministerial, pela facilidade com que o texto mostra o processo de pregação evangelística (veja os versos 1, 3, 7, 9-10, 15-17, 21, 25) ao mesmo tempo em que enfatiza a importância das atitudes pastorais assumidas pelo apóstolos (versos 22-23). O apóstolo investiu em ambas facetas do ministério. Nesse sentido, podemos entender que para Paulo não havia nenhum dualismo que tornasse o pastoreio uma ação ministerial distinta da missão e vice-versa.

O crescimento da palavra de Deus (12.24; 13.49) já não pode mais ser visto ou medido por nós de forma unilateral. O aumento do número de membros ou o aumento do número de novas igrejas plantadas, por si só, podem ser insuficientes para descrever o crescimento da palavra de Deus. Por outro lado, também não podemos medir o crescimento da palavra de Deus quando o investimento recai sobre uma ação pastoral destituída da missão evangelizadora de toda a igreja e, frequentemente, com forte ênfase na manutenção eclesiástica. O que precisa ficar claro é que a polarização, tanto para a missão, quanto para o pastorado, sempre desvirtua o crescimento integral e equilibrado da palavra de Deus em todas as dimensões da vida humana.

Mas ao seguir a linha-mestra dos capítulos 12 a 14 podemos ver o crescimento da palavra de Deus pela inter-relação existente entre missão e pastoral, como ministérios conjugados no mesmo ambiente em favor da formação integral da comunidade cristã. A ênfase, portanto, que deve ser insistentemente recuperada por todos nós é que pastoreio e missão são realidades que pertencem uma à outra.

De forma lamentável, constatamos sérias dificuldades quanto a isso. Em primeiro lugar, não podemos restringir nosso conceito e prática de pastoreio às atividades que são restritas ao pastor da igreja. Da mesma forma, também não devemos limitar o trabalho missionário àquelas atividades exercidas pelos missionários transculturais. Ambas as ênfases, muito frequentes entre nós, restringem nosso conceito de igreja e ministério, bem como nossa capacidade de compreender e responder plenamente à vocação de Deus em nossa vida e em nosso meio.

Outra dificuldade que encontramos instalada é a prejudicial dicotomia entre pastoreio e missão, a que fomos submetidos. Grande parte dos nossos irmãos, inclusive obreiros (pastores e missionários ou evangelistas), parte do pressuposto, tido como certo, de que o trabalho pastoral e o trabalho missionário praticamente nunca se encontram, a não ser nos curtos “momentos missionários” ou “cultos missionários”. Até certo ponto são realidades que competem entre si pela atenção e recursos da igreja.

Ainda vemos, como uma nova dificuldade, que atualmente tanto o pastorado quanto o trabalho missionário se tornaram reféns do “pragmatismo metodológico”. Se deu certo em outro lugar, precisa ser transplantado para o nosso meio como a chave do sucesso. De forma até chocante, pode-se constatar que esse pragmatismo dos métodos que prometem conversões, crescimento numérico e, consequentemente, aumento na arrecadação e sucesso já assume um perfil hermenêutico, ou seja, já estamos lendo a Bíblia por essa perspectiva sem que isso nos incomode significativamente. Na verdade, parece que a não associação (a dicotomia) entre pastoral e missão na vida da igreja como um todo e suas consequências, já é causada por certa deficiência hermenêutica e, ao mesmo tempo, promove essa mesma deficiência.

No texto de Atos 14 observamos que o apóstolo, ao longo de sua primeira viagem missionária, dedicou-se à evangelização “falando de tal modo que veio a crer grande multidão de judeus e gentios” (14.1), ao mesmo tempo em que o Senhor “confirmava a mensagem de sua graça realizando sinais e maravilhas pelas mãos deles” (14.3). E, mesmo em meio às adversidades e provações decorrentes da pregação genuína do evangelho de Jesus que levaram Paulo e sua equipe a refugiar-se em outras cidades, eles “continuaram a pregar as boas novas” (14.7).

Entretanto, todo o empenho missionário e evangelístico foi perfeitamente associado à formação de discípulos de Jesus Cristo. Vemos no verso 21 que a ação de Paulo e seus companheiros é descrita de forma dupla: tanto pregaram as boas novas (evangelização) quanto fizeram discípulos (referência aos convertidos) e, logo quando retornaram para Listra, Icônio e Antioquia se dedicaram a fortalecer os discípulos e a encoraja-los a permanecerem firmes na fé cristã (14.22). Juntamente com esse trabalho de pastoreio e discipulado, e até mesmo como consequência esperada do pastoreio e da evangelização, Paulo e Barnabé “designaram-lhes ou ordenaram-lhes presbíteros em cada igreja” (14.23). Embora do nosso prisma atual seja fácil separar o que é trabalho missionário por um lado, e o que é trabalho pastoral por outro, parece muito claro, pelo texto, que essas duas dimensões do ministério não podiam ser tão facilmente separadas na visão e na experiência dos apóstolos.

Diante disso, é muito importante vencer as dificuldades relacionadas com a dicotomia entre pastoral e missão e buscar formas concretas, para o nosso momento histórico e eclesiástico, de se viver e exercer a missão e a pastoral como realidades pertencentes uma à outra. Vencer esse desafio que a palavra de Deus nos apresenta significa buscar a transformação das nossas estruturas conceituais e ministeriais. O desafio que temos à frente, portanto, nos levará a recuperar o conceito bíblico de pastoreio e de missão, nos conduzirá através da leitura permanente da Bíblia à uma experiência renovadora de vida cristã e de vida eclesial, nos proporcionará um testemunho eficaz da mensagem da graça de Deus e nos deslocará de dentro de nós mesmos para dentro do verdadeiro lugar do exercício do ministério, o mundo.

É preciso crescer na palavra de Deus em direção à uma nova visão e experiência de pastoreio e de missão. Nesse sentido, todos somos pastores e todos somos missionários. E o pastor sem alma de missionário comprometerá, em médio prazo, a inteireza de seu ministério. E o missionário sem alma de pastor igualmente comprometerá, em médio prazo, a inteireza de seu ministério. Por uma pastoral mais missionária e por uma missiologia mais pastoral!

Deixe uma resposta