Por um despedir responsável

Mônica Mesquita

Quando uma igreja local ou um órgão denominacional firma laços com um missionário, é imprescindível que algumas perguntas sejam feitas – e respondidas – para que o acordo estabelecido entre ambos logre êxito. O que a igreja espera do missionário? Quais as suas atribuições? Qual a sua responsabilidade? O seu dever? Os seus direitos? Da parte do missionário também se deve questionar. O que ele espera da igreja? Quais as suas obrigações diante dela? Quais os seus direitos?
Muitos relacionamentos missionário/igreja local tornaram-se traumáticos pela falta de cuidado em enumerar e responder essas questões no momento em que se estabelece um vínculo qualquer entre ambos.
O Novo Testamento nos dá uma primorosa diretriz, no exemplo que a Igreja de Antioquia deixou, por ocasião do envio de Paulo e Barnabé. Antioquia era uma igreja que esperava no Senhor, que andava com o Senhor, que ouvia a voz de Seu Senhor. Sabemos que ali surgiu o primeiro ato planejado e respaldado de missão transcultural. Antioquia viu além. Queria que o Evangelho superasse barreiras raciais, étnicas, sociais e geográficas que havia em sua época. O texto sagrado registra, no versículo 3 de Atos 13: “Então, jejuando e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram.” (Tradução Revista e Atualizada). Quais poderiam ser as implicações e as deduções em relação à expressão “os despediram”?
Apélusan, o verbo grego traduzido por despediram, tem o sentido de libertar, soltar, mandar embora. A sequência jejuar – orar – impor as mãos – despedir, pressupõe todo um ambiente espiritual que envolvia a igreja em si e os que estavam sendo enviados. O ato de impor as mãos mostra que a igreja está se associando com aqueles homens, está recomendando-os à graça de Deus, é um símbolo de comunhão, um reconhecimento claro de que criam piamente que o próprio Deus os chamara. Paulo e Barnabé tinham uma história de serviço naquela comunidade e seu testemunho foi tão impactante que ela, com tranquilidade,  responsabilizou-se pelo envio de ambos. Percebemos, nessa associação, uma via de mão dupla. O missionário fazendo a sua parte e a igreja, a sua.
O texto bíblico em questão não esclarece os detalhes ‘logísticos’ dessa empreitada: se a igreja se preocupou com as vestimentas, calçados, se entregou um alforje abastecido ou uma pequena reserva de alimento para seus novos missionários, no entanto temos a certeza de que esse processo foi respaldado por um caráter de extrema comunhão e responsabilidade de ambos: os que iam e os que ficavam.
É esse o caráter que precisa fluir da Igreja Brasileira para com os seus comissionados. Ações espirituais, embasadas na vontade do Pai, que reflitam todo um pressuposto de santidade, maturidade cristã e espírito de serviço.
Chega de cartas enviadas aos campos informando que o sustento está sendo cortado. Chega de e-mails informando que por a igreja ter uma nova concepção e definição de campo, o dileto missionário não poderá mais contar com ela. Chega daqueles longos e intermináveis meses sem nenhuma linha sequer por parte da igreja, dando ao menos um “olá, como vai?”. Chega daquela antiga e redundante pergunta “quantas almas já se converteram?”, como se um ministério pudesse ser medido apenas por isso. Chega de tanto desserviço. Chega.
Vamos libertar nosso missionário, vamos soltá-lo, vamos mandá-lo embora (na graça de Deus), e enquanto ele ‘lá’ estiver, que a igreja esteja lá com ele, de prontidão ante o falar de Deus e ante o como sequenciar essa despedida.

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