Profissionais e missionários

Antonia Leonora (Tonica)

Oficialmente, desde a Reforma as igrejas evangélicas aceitam a doutrina do sacerdócio universal dos santos, ou, em outras palavras, que não existe diferença entre pessoas especialmente consagradas a Deus, capazes de realizar ofícios religiosos, e os que simplesmente crêem, “os que seguem os ungidos do Senhor”. Porém, mesmo com essa doutrina oficial, ainda estamos muito presos ao sistema que divide clero e leigos.

Os pastores e missionários são vistos como uma classe à parte; se não são mais santos, pelo menos deveriam ser. Certamente devem ser mais capazes de servir no ministério cristão. Por alguns, são vistos como um tipo de parasitas: não trabalham e dependem sempre do dinheiro dos outros. Já os que trabalham para ganhar seu próprio pão são os cristãos “normais”, menos santos, menos consagrados e menos capazes no serviço cristão. Os primeiros seriam chamados a sofrer por sua fé; os últimos, a seguir como podem, porque sua responsabilidade principal é o trabalho de cada dia.

Mas não foi sempre assim. Na Bíblia, a maioria das pessoas que Deus chamou e usou eram profissionais. Moisés já tinha 20 anos de “carteira assinada” na corte egípcia, mais 40 anos de pastor de ovelhas em Midiã. Como aposentado, começou uma nova carreira, a mais exigente de todas. Daniel era um administrador público capaz e respeitado, que deu seu testemunho fiel e constante durante todo o período do Império Babilônico e no início do Império Medo-Persa. Amós era um roceiro que possuía uma consciência sensível e um forte compromisso com Deus. Por um tempo, deixou a roça aos cuidados da família para fazer uma viagem missionária a Israel. O próprio Jesus gastou mais anos na marcenaria do que no ministério de pregador itinerante. Paulo é conhecido como fazedor de tendas e defendeu essa posição em seu ministério pioneiro para evitar ser visto como alguém que era pago para difundir uma religião e para dar exemplo de trabalho honesto para os cristãos. Depois dele surgiram Priscila e Áqüila, seus colegas e amigos, que se tornaram cooperadores no ministério, hospedaram a igreja em sua casa e chegaram a arriscar suas vidas por amor ao evangelho.

E hoje? Cada vez mais entre povos não alcançados não há oportunidades para missionários tradicionais. Além disso, em vários contextos, a pessoa que ganha para difundir sua religião é vista com certa desconfiança. Em contrapartida, há muitas vagas para profissionais capacitados, dispostos a servir em outras culturas: pessoal da área de saúde, informática, professores, agrônomos, engenheiros etc. Principalmente se não exigirem condições de vida muito boas, salários muito elevados, tiverem disposição para se integrar em novas culturas e mostrarem flexibilidade para diferentes tipos de trabalho. Enquanto prestam bons serviços, sempre surgem oportunidades para testemunhar de sua fé. Uma pessoa amiga foi para um dos países considerados muito fechados e, em menos de um ano, conseguiu visto de residente. Outra conseguiu uma vaga como professora na universidade local. Outros se integraram de maneira significativa na cultura local e mostram amor em seus relacionamentos.

Como brasileiros, geralmente somos bem recebidos, pois não representamos uma ameaça econômica ou política. Nossa falta de influência na política internacional, nossa habilidade no futebol, nossa imagem de pessoas comunicativas são vantagens que podem ser aproveitadas. Também temos alguns problemas. Devido a nossas novelas e ao Carnaval, as mulheres brasileiras são vistas como fáceis ou como terríveis, o que pode trazer algumas dificuldades nos relacionamentos.

Queremos aproveitar esse grande desafio missionário, que não é novo, mas cada vez mais atual e urgente, e encorajar o envio de muitos brasileiros, bons profissionais, para vários lugares carentes da graça de Deus e de alguns serviços profissionais.(1)

Que Deus se sirva de nós para a sua glória!

NOTA:
1. Para facilitar contatos relacionados com esse trabalho surgiu a AFTB (Associação de Fazedores de Tenda do Brasil). Para facilitar o treinamento, existe, entre outras, a Escola de Missões do CEM (Centro Evangélico de Missões).

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