Profissionais missionários no Brasil

Délnia Bastos

Uma história que ainda está sendo escrita

Francisco e Ana sempre se envolveram com as questões sociais e políticas do Brasil. Mas um dia sentiram que poderiam ser úteis também fora, em algum lugar ainda mais necessitado. Estudaram missões e foram para Moçambique. Depois de algumas experiências frustrantes, juntaram-se a uma organização humanitária cristã e serviram por uns bons anos naquele país. Paralelamente ao exercício profissional, apoiaram grandemente o trabalho evangélico local. Isso foi na década de 90.

Qual o pano de fundo histórico para que este casal seguisse o exemplo de outros e se tornasse fazedor de tendas? Vejamos um pouco (muito pouco) da história do envolvimento de profissionais em missões no Brasil, dividindo-a em três ondas.

A primeira onda (1885-1950)

A primeira onda se caracterizou pelos profissionais missionários que vieram para a nossa terra. Muitos desconhecem que o primeiro missionário a se fixar de forma permanente no Brasil foi o free-lancer Robert Kalley (1809-1888) — intitulado médico, missionário e profeta por um de seus biógrafos (1). O Dr. Kalley veio da Escócia em 1885, com sua segunda esposa, uma musicóloga que fundou uma instituição de ajuda a carentes. Dr. Kalley tanto pastoreava como praticava a medicina. Ajudou a debelar a epidemia de cólera que aconteceu em Petrópolis, em novembro de 1855, e a epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro, em julho de 1858 (2).

Ele e dona Sara foram os primeiros. Mas vieram outros e agradecemos a Deus por todos esses que, muito antes de usarmos o termo “fazedores de tendas”, se deram como profissionais e missionários para o nosso povo e marcaram a nossa história.

É importante citar aqueles que iniciaram e apoiaram o movimento estudantil no Brasil. Cem anos depois da vinda do casal Kalley, Ruth Siemens, professora e diretora de escola, e Robert Young, professor universitário, fundaram a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB). Eles não abandonaram suas profissões para ministrar entre os estudantes; pelo contrário, sua vida profissional também produzia frutos e servia de modelo para seus discípulos.

A segunda onda (1950-2000)

A seguir, começaram a surgir profissionais brasileiros comprometidos com a missão. E foram muitos! Professores que ensinaram tanto na sua área de conhecimento como o evangelho. Arquitetos e engenheiros que contribuíram, muitas vezes de forma voluntária, com projetos de construção de um sem-número de igrejas e instituições para-eclesiásticas por este Brasil afora. Médicos e demais profissionais de saúde que se dedicaram ao cuidado físico, principalmente dos mais necessitados; fundaram clínicas e hospitais. Administradores, contadores, secretários e secretárias, que dedicaram seus dons e talentos em instituições sociais. Lembramos do exemplo de alguém que completou 40 anos de ministério em 2003: Robinson Cavalcanti. Ele mesmo diz: “Dou graças a Deus por […] ter minha própria fonte de renda secular (ser um “fazedor de tendas”), o que me tornou menos vulnerável aos sistemas eclesiásticos” (3).

Assim, já estamos falando da segunda onda do movimento de profissionais missionários. Não se sabe exatamente quando o termo “fazedores de tendas” passou a ser usado no Brasil. Mas foi a partir de 1976, no histórico Congresso Missionário, realizado em Curitiba, pela ABUB, que vimos, com certeza, a concretização da idéia que o termo transmite. Nas palavras de Dieter Brephol:

“Temos visto, em todo o Brasil, jovens dando à sua vida profissional um sentido totalmente novo. Estudantes de medicina, em busca de oportunidades missionárias em suas vidas, entregam sua profissão à disposição de Cristo. Estudantes de letras e comunicações pesquisam possibilidades de usar seus conhecimentos na obra do Senhor. Psicólogos estudam maneiras de contribuir com a sua especialidade no aconselhamento pastoral, no serviço aos membros da igreja e à sociedade. Na área de educação, na área técnica, temos visto jovens orando pela orientação de Deus, buscando-lhe a vontade, para darem à sua profissão um sentido vocacional. Deus está chamando jovens de todo o Brasil, pedindo-lhes suas vidas, profissão, futuro, sonhos — tudo — para serem gastos a seu serviço (4)!”

E no Pacto do Congresso, lemos:

Reconhecemos que a missão não pode ser um departamento isolado da vida da Igreja, fazendo parte da própria essência desta, pois “ou a igreja é missionária ou não é igreja”; assim que a missão envolve a cada cristão na totalidade de sua vida, substituindo, pelo sacerdócio universal, o errôneo conceito da exclusividade de ser missionário por profissão. Nós estamos profundamente preocupados pela falta desta visão missionária na Igreja no contexto latino-americano (5).

Iniciativas mais ousadas começaram a surgir. Os profissionais brasileiros viram que também poderiam dar sua parcela de contribuição em missões transculturais — não se tratava de deixar de lado a missão integral, mas vivê-la em campos distantes, em outras culturas. Vimos profissionais alcançando indígenas brasileiros com os barcos de assistência integral na Amazônia, por exemplo. Vimos outros indo principalmente para países da África de língua portuguesa e, depois, Timor Leste. Nesta fase, a Visão Mundial Internacional teve um papel preponderante. Acreditou nos profissionais brasileiros e os enviou para o campo transcultural. O que caracterizou esta segunda onda foi a questão da independência, em todos os sentidos: o profissional era auto-enviado, auto-sustentado, auto-suficiente… Bom, na verdade ele não era tão “auto” assim… Por isso mesmo esse modelo teve muitas e sérias limitações. O profissional, sem apoio pastoral, nem compromisso formal com sua igreja local, nem apoio de uma agência missionária, nem uma equipe de campo, voltava esgotado. Como os missionários convencionais, ele dava muito de si, e nada recebia. Por outro lado, ele desconhecia outros modelos e agências no Brasil que pudessem apoiá-lo. Nessa fase, foram fundamentais algumas publicações, que eram o único suporte desses fazedores de tendas: Jesus Cristo, Senhorio, Propósito e Missão (ABU Editora, 1978), que é o compêndio do Congresso Missionário de 1976; Fazedores de Tendas Hoje! (Sepal, 1992); Profissionais em Missões – Um Guia para o Fazedor-de-Tendas(Vida Nova, 1995); e A Hora e a Vez dos Leigos (ABU Editora, 1998).

Em 1983 o Centro Evangélico de Missões (CEM) surgiu como uma escola missionária com forte ênfase no preparo de fazedores de tendas. Já em 1993, num evento especial e histórico, o livro Fazedores de Tendas Hoje! foi lançado no CEM, com a presença do autor J. Christy Wilson, ex-professor no Afeganistão por muitos anos, do médico em Angola Stephen Foster, e de Robson Ramos, diretor da PROEMI – Profissionais em Missão.

Esta foi uma fase de despertamento, conscientização, primeiras experiências. Mas a estratégia ainda precisava amadurecer.

A terceira onda (nossos dias)

E assim entramos na terceira onda, que é muito recente. Trata-se de uma fase mais articulada. Reconhecidas as limitações da fase anterior, os próprios ex-fazedores de tendas, os fazedores de tendas atuais e os futuros fazedores de tendas procuram se conhecer, se associar, trocar informações e trabalhar juntos.

No dia 5 de novembro de 2001, último dia do Congresso Nacional da Aliança Bíblica Profissional, foi organizada a AFTB – Associação de Fazedores de Tendas do Brasil. A AFTB surgiu ligada à ABUB e à TIE – Tentmakers International Exchange.

Outro acontecimento histórico foi a parceria estabelecida entre o Centro Evangélico de Missões e a missão Interserve, que envia profissionais para o Mundo Árabe e partes da Ásia. Desde 10 de agosto de 2003, a Interserve no Brasil, com o apoio da Interserve do Canadá, tem desenvolvido esforços para que brasileiros também se juntem aos cerca de 600 profissionais que servem nessa área do mundo.

Esta fase está apenas começando, mas temos visto Deus unir forças e abençoar. É a história do movimento que está sendo escrita hoje. Igrejas e agências missionárias estão se abrindo para o fazedor de tendas. Ainda é uma minoria, mas é um começo. A questão estratégica é cuidadosamente avaliada. Sabe-se que em 60 nações não-alcançadas com o evangelho, a maioria nações empobrecidas, o missionário convencional simplesmente não entra. Por isso muitos especialistas têm dito: é a hora dos fazedores de tendas. E o Brasil começa a participar deste movimento global. Algumas palavras que fazem parte do novo discurso são:

a) missão integral: o mandato cultural e o mandato evangelístico juntos são a base da vocação do profissional cristão; b) preparo: o fazedor de tendas deve ter um bom preparo, como todo missionário;

b) humildade: o auto-sustento deixou de ser a característica principal do fazedor de tendas, pois muitos precisam de recursos adicionais para viverem em países que não podem pagar bons salários; a humildade também é necessária para aprender língua e cultura diferentes, e para trabalhar em equipe;

c) envio pela igreja local: e não “auto-envio”, como acontecia anteriormente;

d) equipe: o fazedor de tendas passa a fazer parte de uma equipe no campo, evitando o isolamento;

e) excelência profissional: não se pode fingir de profissional nem tampouco “usar” a profissão apenas para obtenção de visto; espera-se que o fazedor de tendas tenha consciência de que também está servindo a Deus em sua profissão no contexto da missão integral;

f) parceria: na maioria das vezes é preciso realizar uma parceria entre o fazedor de tendas, a igreja local e uma ou mais agências missionárias; além da parceria com as nações historicamente enviadoras, unindo a experiência destas com o nosso entusiasmo e outros aspectos da nossa cultura;

g) apoio pastoral: tanto quanto os outros, os profissionais precisam de cuidado pastoral integral;

h) “reciclagem”: o profissional pode e deve interromper seu trabalho no campo eventualmente para aprimorar-se profissionalmente.

Francisco e Ana voltarão para o campo, agora nos moldes da terceira onda. Desta vez, eles vão para um país do Mundo Árabe. Serão enviados pela igreja local e por duas agências missionárias: uma denominacional, brasileira, e outra interdenominacional e internacional, que fizeram uma parceria entre si. Terão apoio financeiro de várias igrejas brasileiras, já que lá não receberão salário — diferentemente da experiência anterior em Moçambique. Não terão mais a facilidade de usar o português. Precisam aprender mais duas línguas para viver entre um povo “não-alcançado”. Farão parte de uma equipe internacional no campo. Terão apoio pastoral. Algumas vezes participarão de um encontro maior com outros fazedores de tendas em situação similar. Darão tudo de si aplicando seus conhecimentos num trabalho de desenvolvimento comunitário integrado. Criarão os filhos numa outra cultura, bem diferente da brasileira. Os desafios são maiores, mas também é maior o apoio que terão. O que acontecerá com eles e com muitos outros só Deus sabe com certeza. Como os brasileiros se comportarão em equipes multiculturais? A igreja brasileira será fiel no sustento desse novo modelo de missionário? Conseguiremos cobrir os orçamentos? Seremos capazes de prestar-lhes o apoio pastoral que precisam? Que Deus nos ajude a responder a estas perguntas com o melhor de nós. Assim continuaremos a escrever a história dos profissionais missionários brasileiros e ela ficará cada dia mais bonita, para a honra e glória do Senhor da Seara!

Notas
(1) CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: médico, missionário e profeta. Edição do autor: 2001. 176 p.
(2) CÉSAR, Elben M. Lenz. História da Evangelização do Brasil; dos jesuítas aos neopentecostais. Viçosa: Ultimato, 2000. p. 83.
(3) CAVALCANTI, Robinson. Viver é pensar; as alegrias e tristezas de um autor cristão. Ultimato, Viçosa, nov./dez. 2003, p. 41.
(4) BREPHOL, Dieter et. al. Jesus Cristo: senhorio, propósito, missão. São Paulo: ABU Editora, 1978. p. 5-6.
(5) Idem. p. 123-124.

Texto baseado em palavra proferida em 28 de outubro de 2003 no fórum temático “Ministério do Povo de Cristo/Missão Integral” durante o Segundo Congresso Brasileiro de Evangelização, em Belo Horizonte, MG.

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