Renovar a missão pela interpretação da Bíblia – At 10.17-22

Carlos del Pino
Série Caminho missionário da Igreja

Ao ler o livro de Atos vemos que a pregação do evangelho de Jesus chegou inicialmente aos judeus (At 2.14-41), um pouco mais tarde o evangelho também foi anunciado aos samaritanos rompendo com a desigualdade que havia entre judeus e samaritanos (At 8.4-25) e, ao ler o capítulo 10, descobrimos como a mensagem da salvação em Cristo chegou finalmente aos gentios. Isso torna At 10 um capítulo muito importante para a vida da igreja cristã, pois se trata do primeiro passo dado pela igreja, sob a direta orientação de Deus, em direção a todos os demais povos do mundo, dando início ao fim do cisma entre judeus e gentios. Além disso, descreve também o necessário rompimento com a velha (e preconceituosa!) fronteira judaica que até então estava profundamente inserida na conceituação e práxis teológica (consequentemente missiológica) da igreja. A narrativa da entrada do evangelho no mundo dos gentios foi tão importante para a igreja primitiva, que o fato é novamente narrado no Concílio de Jerusalém (At 15.7-9) pelo próprio Pedro. A partir daqui, podemos dizer, teve inicio para a igreja uma etapa nova em seus conceitos e práticas missionárias, mas para isso foi necessário dar inicio a um processo novo e árduo de interpretação da Palavra de Deus.

A presença do judaísmo pode ser vista claramente na vida de Pedro ao manter os rituais de jejum e oração tal como os judeus os cumpriam (10.9-10) e ao demonstrar indisposição para cumprir o que Deus lhe dizia por tratar-se de algo que feria as tradições da religião judaica (10.11-16). As transformações que se processaram, a partir daqui, na forma de Pedro (e progressivamente toda a igreja) pensar e viver a teologia e a missão foram muito significativas, mesmo havendo futuros deslizes como em Gl 2.11-21, que nos esclarece que se trata de uma transformação que ocorre historicamente.

Pedro teve uma visão e ouviu uma voz que lhe apresentava a vontade de Deus. Era uma palavra bem diferente da tradição judaica, por não destacar a distinção entre os alimentos, nem a desigualdade entre os seres humanos. Ultrapassar a fronteira do ódio gratuito imposta pelos conceitos de superioridade racial e religiosa, exigiu um grande esforço do apóstolo. Isso pode ser visto, inclusive, pela insistência com que Deus falou com Pedro (10.16). Quem sabe poderíamos dar a este capítulo o título de “a nova conversão de Pedro”, pois basicamente, ao refletir no que Deus lhe dizia, ele precisou rever seus conceitos, mudar sua perspectiva teológica e redirecionar sua práxis missionária.

Mas esses novos conceitos teológicos e missiológicos de Pedro não podem ser meramente considerados como resultado de suas discordâncias com os demais apóstolos, muito menos como uma “nova visão renovadora para o crescimento da igreja que Deus lhe havia dado”. Havia, sem dúvida, um sólido pano de fundo recebido pelos apóstolos diretamente do próprio Jesus Cristo. Alguns exemplos disso foram a evangelização da mulher samaritana e sua cidade (Jo 4), a parábola dos lavradores maus (Mt 21.33-46) e a última mensagem deixada pelo Senhor após sua ressurreição (Mt 28.18-20; Mc 16.14-18; Lc 24.44-49; Jo 20.21; At 1.6-8), bem como uma herança vinda do Antigo Testamento contrária à discriminação e à parcialidade (2 Cr 19.7; Dt 10.17-19; Sl 67). Além disso, observamos que, mais tarde, o apóstolo Paulo leva muito a sério toda essa herança (Rm 2.11; Gl 2.6; Ef 6.9).

Pedro partiu da base oferecida por Jesus Cristo e da forma como ele interpretara o Antigo Testamento. Pedro dedicou-se a interpretar, também, a Palavra de Deus que recebera em Jope. Lemos que Pedro estava “refletindo no significado da visão” (10.17) e que “estava pensando na visão”. Ele não abandonou a prática da busca do significado da Palavra de Deus através da meditação constante. A Palavra o inquietou e o deixou perplexo, pois o fez ver além de sua prática religiosa costumeira e de seus conceitos antigos e viciados. Quanto tempo faz que eu, você, a família e a igreja não ficamos absolutamente perplexos diante do texto bíblico, a ponto de nos entregarmos à meditação e ao estudo sério buscando o sentido mais íntimo da Palavra de Deus e seus significados para todos e para a missão?

A perplexidade, a reflexão e a meditação resultaram na renovação dos conceitos, da teologia e da prática missionária de Pedro. Sua primeira reação foi receber e viajar com os gentios para encontrar-se com Cornélio (10.19-22). Logo depois, não aceitou ser adorado por Cornélio (10.25-26) e entrou na casa dos gentios (10.27). O resultado de sua interpretação do que Deus lhe dissera aparece a partir de 10.28: “mas Deus me mostrou que eu não deveria chamar impuro ou imundo a nenhum homem”. Pedro precisou realizar um sério trabalho de interpretação da Palavra de Deus para compreender o sentido correto de sua visão e como aplicar esse sentido à situação específica que estava vivendo naquele encontro com o gentio Cornélio e sua família. Podemos dizer que ele realizou uma “caminhada hermenêutica” e, com isso, as portas do evangelho de Jesus se abriram a todos aqueles que os judeus (como Pedro e os demais apóstolos) consideravam, definitivamente, como indignos de Deus.

Somente após sua aproximação e interpretação da Palavra de Deus é que Pedro estava em condições de apresentar a mensagem redentora do evangelho de Jesus àquelas pessoas (10.34-43) e dá início à sua pregação reafirmando, novamente e agora com palavras das próprias Escrituras (Dt 10.17), que Deus não faz acepção de pessoas. E é bom notar que esta citação do Antigo Testamento vem imediatamente acompanhada pela interpretação e aplicação de seu sentido ao contexto de vida de uma igreja que deveria deixar de ser restrita aos judeus, seus costumes e conceitos teológicos, para tornar-se multinacional e multirracial para, então, conseguir chegar a todas as dimensões da vida e das sociedades humanas.

No final de sua pregação, ao ver que os gentios haviam sido alcançados pela graça salvadora de Deus e recebido o Espírito Santo da mesma forma que eles mesmos o haviam recebido tempos atrás, Pedro ordena que fossem batizados. Isso indica, claramente, que os gentios passaram a fazer parte da vida da igreja a partir daquele momento. Judeus e gentios, tradicionalmente separados pela religião, agora unidos em Cristo (Paulo elabora essa união e reconciliação-paz de judeus e gentios em Cristo de forma muito significativa em Ef 2.11-22).

Da mesma forma como Deus usou a Pedro para o avanço do Reino de Deus no mundo, ele também se dispõe a nos usar. Portanto, é realmente muito importante que todos nós nos dediquemos à leitura séria e humilde da Palavra de Deus buscando incessantemente compreender o seu sentido mais profundo e, por meio do processo de meditação e reflexão, encontrar formas de aplicação desse sentido ao nosso contexto atual. Em outras palavras, o que gostaria de dizer é que o estudo e a interpretação do texto bíblico por cada um de nós sem exceção e por toda a igreja é o cerne da missão.

Nesse sentido, podemos dizer que a missão não tem sua origem nas milhões de almas sem Cristo, nem na urgência da pregação, nem nos povos ainda por alcançar, muito menos nos elaborados programas de evangelização e crescimento de igreja. Somente encontraremos a origem e a fonte da missão quando nos debruçarmos seriamente no texto bíblico: a primeira tarefa missionária da igreja é, sem dúvida alguma, sua vocação hermenêutica. Portanto, somente poderemos renovar nossos conceitos e práxis de missão, quando renovarmos nosso estudo da Palavra de Deus. Esse é, provavelmente, o grande desafio missionário que bate às nossas portas!

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