Resultados missionários e a visão missionária

Carlos del Pino
Série Resultados missionários

Tanto nós missionários como as nossas igrejas, os nossos diversos campos e as nossas várias agências precisamos crescer em nossa visão missionária. Normalmente quando se fala de “visão missionária” rapidamente nos movemos para o campo das estratégias e metodologias, crendo sinceramente que as formas, os estilos, as atividades e os “como fazer” são os elementos centrais de devem definir a nossa visão.

Por exemplo: frequentemente ouvimos igrejas, missionários e agências dizendo que a sua visão missionária é “plantar igrejas” ou “revitalizar igrejas”; outras vezes, que a sua visão missionária é “trabalhar com casais”; em outros casos, seria “treinar liderança” ou “fazer um trabalho de impacto com jovens”, entre outras diversas formas de “como fazer”. Além disso, também encontramos os que definem a sua visão missionária não tanto como o “como fazer”, mas com o “onde fazer”, ou seja, identificando sua visão missionária com algum povo ou lugar específicos.

Obviamente, se seguimos qualquer um desses exemplos buscaremos os “resultados missionários” condizentes com o nosso “como fazer” ou o nosso “onde fazer”. Seriam resultados definidos e limitados às estratégias e metodologias inamovíveis e previamente estabelecidas, mantendo, assim, esse velho e desgastado círculo vicioso empresarial que foi incluído como o eixo central da vida missionária (secularismo).

Por outro lado, se buscamos um conceito mais bíblico de “visão missionária” poderemos, também, definir os “resultados missionários” por critérios mais acertados diante da palavra e da vontade de Deus. Certamente, mais do que simplesmente definição, esse procedimento dará início a um longo e árduo processo de redefinição dos resultados missionários que todos buscamos ou esperamos. Cremos que essa redefinição dos resultados à luz da visão missionária surgida das Escrituras é uma parte essencial do nosso constante caminhar na missão de Deus.

Ao falar de “visão” pensamos logo no ato de olhar, que ao longo da vida se transforma em uma prática permanente e especialmente hermenêutica. Olhamos pessoas, coisas e situações ao nosso redor, mas sempre as olhamos, desde o início da nossa vida, a partir de um determinado ponto de vista ou perspectiva, para o qual fomos treinados cultural, familiar, acadêmica e, até mesmo, eclesiasticamente. A forma como vemos (e vivemos) a missão é, também, fruto dessa vasta experiência e informações recebidas; assim, falar de “visão missionária” nos leva tanto à uma “definição ótica”, quanto ao desafio permanente de uma “revisão ótica” e sua consequente busca de uma visão adequada e renovada pelos princípios da palavra de Deus.

Sendo assim, para onde devemos olhar quando falamos em estabelecer uma visão missionária a partir da palavra de Deus? O que devemos ver quando olhamos a partir dessa nova visão missionária? O que apresentamos a seguir são apenas alguns elementos que devem compor nossa nova “visão missionária”, de forma a recompor aos poucos o nosso conceito e a busca por “resultados missionários”.

1. Olhar para cima: um olhar da glória de Deus

Olhar para cima significa que devemos olhar para Deus e glorifica-lo por tudo o que ele é e faz. Não podemos dizer que temos uma visão missionária se, vividamente, não nos dedicamos a olhar para Deus, contemplando a majestade de sua glória de forma a transformar-nos gradativa e profundamente. Nesse sentido, o propósito último da igreja sempre é glorificar a Deus e, com isso vivo em nossa “visão”, poderemos viver a missão de Deus entre os seres humanos cientes do tipo de resultado que devemos esperar e colher. De fato, glorificar a Deus poderia ser considerado o principal resultado missionário que devemos esperar dos obreiros, das igrejas, das agências e dos campos missionários.

Nesse sentido, as palavras de Paulo em 1Co 10.31, “assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”, assumem um significado muito especial para a construção de uma visão missionária que seja bíblica. Sabemos que estas palavras foram conclusivas de uma longa discussão sobre a liberdade cristã e como usá-la adequadamente: podemos comer ou não? (10.29-30). Sua afirmação de que “tudo é permitido, mas nem tudo convém” (10.23) nos leva a pensar na liberdade cristã à luz da glória de Deus, ou seja, tudo se resolve quando olhamos diretamente ao objetivo maior das nossas vidas e da nossa vocação como servos de Deus. Assim, a principal pergunta deixa de ser “posso fazer isso?” e passa a ser “para onde a minha vida caminha diante de Deus?”, “onde ponho os meus olhos e visão enquanto vivo a vida que Deus me deu?”, “qual é o fim principal do ser humano?” A resposta do apostolo é muito clara: tudo gira ao redor da glória de Deus e da nossa atitude de glorifica-lo como nosso Deus e Redentor. Nisto reside a questão fundamental de toda a nossa vida e, a partir desse fundamento, que é ao mesmo tempo o objetivo último da nossa existência, buscamos e encontramos diariamente o sentido para a vida, para a fé e para a missão.

Encontramos esse conceito também em Mt 5.16: “assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus”. Aqui o “olhar para cima e contemplar a glória de Deus” tem significados missionários muito importantes, pois leva a outros a também glorificarem a Deus ao ver nossa vida dedicada à sua glória. Ao olhar para cima, glorificamos a Deus sendo sal e luz do mundo, vivendo singela e verdadeiramente a fé em Cristo, comprometendo-nos com os valores do seu reinado e anunciando o evangelho com toda a nossa vida (leia também 1 Pe 2.11-12; 4.10-11). Olhando para cima, então, encontramos um elemento essencial para a composição de uma “visão missionária” que nos conduza a resultados missionários condizentes com a glória de Deus.

2. Olhar para os lados: um olhar vocacional

Olhar para os lados significa que devemos olhar vocacionalmente as demais pessoas e dedicar-nos ministerialmente ao serviço dos seres humanos. Não haveria uma visão missionária significativa se nosso o olhar se desviasse do ser humano tal como é e está diante de Deus e diante da sociedade. Se, de fato, cremos que a humanidade toda é o nosso campo missionário, o nosso olhar vocacional e misericordioso, como igreja e missionários, deve estar dirigido a todos os lados ao mesmo tempo.

Nesse sentido, seguindo a linha-mestra dos capítulos 12 a 14 de Atos, vemos o crescimento da palavra de Deus pela estreita relação existente entre missão e pastoral, como ministérios conjugados no mesmo ambiente em favor da formação integral da comunidade cristã, o que leva a que o pastoreio e a missão são realidades que pertencem uma à outra. Isso significa que o conceito e a prática do pastoreio não se restringem às atividades do pastor da igreja. Da mesma forma, o trabalho e a visão missionária não pode ficar restrita às atividades exercidas pelos missionários transculturais. Ao olhar para os lados, eliminamos a dicotomia comum que se estabeleceu entre pastoreio e missão, bem como entre ambos e o trabalho teológico, além de livrá-los da pressão condicionante do pragmatismo metodológico e suas graves consequências. Estão, realmente, em profunda inter-dependência vocacional e ministerial, o que significa que se concedem sentido entre si.

No capítulo 14 notamos o grande emprenho missionário de Paulo e sua equipe, dedicando-se à evangelização “falando de tal modo que veio a crer grande multidão de judeu e gentios” (14.1), ao mesmo tempo em que o Senhor “confirmava a mensagem de sua graça realizando sinais e maravilhas pelas mãos deles” (14.3) e, mesmo em meio às adversidades decorrentes da pregação genuína do evangelho que levaram Paulo e sua equipe a refugiar-se em outras cidades, eles “continuaram a pregar as boas novas” (14.7). Esse empenho missionário foi associado perfeitamente à formação de discípulos de Cristo, como vemos em 14.21 onde a ação da equipe de Paulo é descrita de forma dupla: pregaram as boas novas (evangelização) e fizeram discípulos (pastoreio) e, retornando para Listra, Icônio e Antioquia se dedicaram a fortalecer os discípulos e a encoraja-los a permanecerem firmes na fé cristã (14.22). Como consequência esperada do pastoreio e da evangelização, Paulo e Barnabé “designaram-lhes ou ordenaram-lhes presbíteros em cada igreja” (14.23).
Olhando, então, vocacionalmenre para os lados e para todos os seres humanos como pessoas criadas por Deus à sua imagem e, portanto, dignas de receberem a mensagem de Cristo, encontramos mais um elemento essencial para a composição de uma “visão missionária” que nos conduza a resultados missionários condizentes com a realidade de pecado e carência em que vivem os seres humanos.

3. Olhar para frente: um olhar de esperança

Olhar para frente significa que devemos olhar esperançosos para a próxima geração de cristãos que nos sucederá. Sem plantar as sementes corretas que germinarão no futuro, dificilmente poderíamos dizer que temos uma “visão missionária” que produzirá bons resultados missionários na próxima geração. Levamos o evangelho efetivamente no mundo, nosso campo missionário, também para que os nossos filhos e netos possam colher resultados e continuar plantando a semente do evangelho para a seguinte geração.

Ao observar a forma como todos esperam e buscam por resultados missionários nos nossos dias, normalmente vemos que o que se espera são resultados extraordinários a muito curto prazo, justificando assim os investimentos financeiros que estão sendo feitos hoje. Essa perspectiva, embora muito comum e já incorporada à visão missionária corrente (secularismo), não nos permite olhar para frente com um olhar de esperança em relação à próxima geração de cristãos no nosso mundo.

A questão é que nem sempre é possível colher resultados numéricos a curto prazo, por mais que se pressione os obreiros e as novas igrejas que estão sendo estabelecidas e por mais que se divulguem fotos cheias de gente e atividades que reuniram muitas pessoas. Na verdade, essas fotos e essas atividades não representam o dia a dia do trabalho missionário! A missão se vive, se faz e, obviamente, se mede “geracionalmente”, nunca a curto prazo e por medidores empresariais.

Nesse sentido, é muito importante observar a relação que o apóstolo Paulo estabelecia com seus companheiros de missão e a forma como preparava e dava oportunidades ministeriais aos novos obreiros, como Timóteo, Apolo e outros, facilitando assim que a nova geração se estabelecesse ministerial e missionariamente no mundo, bem como demonstrando-nos que sua visão missionária o levava sempre a olhar com esperança para frente. No caso das divisões da igreja em Corinto, Paulo afirma que se, por um lado, foi ele quem plantou, por outro lado, foi Apolo quem regou, enfatizando que seu ministério foi o de evangelização e estabelecimento, enquanto que o ministério de Apolo, posteriormente, foi o de ensino, pastoreio e discipulado (1 Co 3.6). No final das contas, o “resultado missionário” esperado tanto por Paulo como por Apolo é que o crescimento é efetuado unicamente por Deus (3.7).

Sendo assim, se não olhamos para o futuro com esperança e se não trabalhamos geracionalmente, nossa visão missionária ficará aprisionada pelas atividades presentes e buscando ansiosamente os resultados numéricos a curto prazo e, pior ainda, crendo que tanto o que planta como o que rega “são alguma coisa” e que o efetivo “resultado” dado por Deus não pode ser esperado para a próxima geração (3.7). Entretanto, olhando com esperança para frente e para a próxima geração, encontramos outro elemento fundamental para a composição de uma “visão missionária” que nos conduza a resultados missionários condizentes com a perspectiva divina de “efetuar o crescimento”.

4. Olhar para baixo: um olhar espiritual

Olhar para baixo significa que devemos olhar espiritualmente para as nossas próprias vidas como servos de Cristo em missão neste mundo. A espiritualidade é, sem dúvida, um dos elementos que devem compor a nossa “visão missionária”, dando-nos uma perspectiva transformadora de nós mesmos como cristãos e como missionários. Obvia e consequentemente, uma visão missionária fundamentada na espiritualidade do “olhar para baixo” também afetará os resultados missionários que buscamos e esperamos, dando-lhes uma dimensão mais equilibrada.

A espiritualidade do olhar para baixo, ou seja, do olhar para a nossa própria vida é, basicamente, uma espiritualidade missionária no que diz respeito ao que produz em nós e na forma como vivemos e fazemos a missão. Assim, esse olhar para baixo que implica, necessariamente, em humildade e confissão, enche de significado a nossa visão missionária, transformando-a sempre e nos conduzindo permanentemente a resultados que modelam a nossa vida e obra missionárias.

Nesse sentido e fundamentando-se nesse olhar-nos espiritualmente, nossa visão missionária deveria encher-se de humildade e esvaziar-se de triunfalismos, deveria pautar-se pela confissão e abandonar os orgulhos eclesiásticos e institucionais que carregamos, deveria assumir uma franca disposição para aprender e deixar definitivamente a atitude de que sabemos como a obra deve ser feita, deveria compor-se pela dedicação ao serviço e o ver-nos pessoalmente como servos a serviço de Cristo e dos demais antes que ver-nos como os melhores, os mais importantes e os que temos todas as respostas, deveria considerar-nos como cooperadores integrados às igrejas já estabelecidas ao chegarmos ao campo e não como implantadores de reinos eclesiásticos próprios, deveria fundamentar-se em um constante estudo e vivência da palavra de Deus e abandonar a intuição e os antropologismos como base para a obra missionária.

Vemos esse olhar espiritual na própria vida de Cristo quando visitou diversas cidades galileias onde ensinou nas sinagogas, pregou as boas novas do reino e curou enfermos (Mt 9.35). Sua reação a essas visitas e atividades foi uma espiritualidade especialmente missionária ao compadecer-se das pessoas e ao reconhecer a grandeza da miséria humana e seu afastamento de Deus, ao afirmar que a obra se compõe de várias dimensões e necessita sempre de obreiros com diferentes ministérios e vocações, ao estabelecer a oração e a intercessão como base para a missão, e ao reconhecer o pleno senhorio do Pai sobre a seara (igreja, mundo, família, pessoas, missionários). Assim sendo, quando olhamos para baixo, para nós mesmos, com um olhar espiritual, nos deparamos com mais um elemento que jamais pode faltar em nossa “visão missionária”, definindo de forma especial os tipos, densidades e formatos dos resultados missionários que devemos ver dia após dia e geração após geração.

Ao falar de “visão” pensamos logo no ato de “olhar”. Portanto, para que a nossa “visão missionária” possa produzir “resultados missionários” fundamentados na palavra e na vontade de Cristo, precisamos então olhar para cima e contemplar a glória de Deus, olhar para os lados e ver vocacionalmente a todas as demais pessoas, olhar para frente e vislumbrar com esperança a próxima geração de cristãos no mundo, e olhar para baixo com uma mirada espiritual à nossa própria vida e missão. Repaginemos os tão almejados resultados missionários à luz de uma visão missionária renovada pela palavra de Cristo.

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