Sucesso ou humildade – quem é o protagonista da missão cristã?

Carlos del Pino
Série Caminho missionário da igreja

O conceito de humildade difere muito se o vemos pelo prisma secular ou pelo prisma da Bíblia. O sentido secular de humildade tem a ver com uma virtude que consiste no conhecimento de suas próprias limitações e debilidades, como ser submisso ou haver nascido em uma classe pobre ou baixa, ou ainda a capacidade de dar menos ou pouca importância a seus logros pessoais, além de reconhecer seus erros e falhas. Além disso, no pensamento clássico, a humildade tinha conotação de servilismo e opróbrio, característica de homens vis ou escravos. Nesse sentido secular, a humildade é vista normalmente de forma negativa e como um impedimento ao sucesso e ao crescimento pessoal e profissional.

Por outro lado, o sentido bíblico fundamenta a humildade no reconhecimento humano de que a nossa vida está sob o controle da ação de Deus. Por isso, podemos ouvir sua voz, dedicar-nos a obedecê-lo e, consequentemente, responder ao seu chamado a servi-lo de forma consagrada. Dessa forma, a humildade recebe um sentido positivo e expressa uma correta e justa relação entre nós e Deus (1).

A humildade, como virtude cristã estabelecida pelo equilíbrio restaurado redentoramente por Cristo entre nosso relacionamento com Deus, se manifesta inicialmente no relacionamento com os demais irmãos na fé e, também, com todas as outras pessoas. O texto de Fp 2.3 nos mostra essa primeira dimensão ao afirmar que as nossas atitudes e obras não devem se fundamentar na ambição egoísta ou na vaidade, e sim em uma atitude e visão humildes para com os demais irmãos. Nesse sentido, a humildade tem a ver com o sistema de valores bíblicos que define a forma como vemos e reconhecemos os outros, levando-nos a cuidar dos interesses e das preocupações dos nossos irmãos, e não somente dos nossos próprios (2).

Este sistema de valores bíblicos deriva-se, inevitavelmente, da própria pessoa de Jesus Cristo, quem “sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fp 2.8). Cristo não apenas nos deu um exemplo de humildade; antes, ele nos abriu o único caminho de acesso a Deus, o caminho da humildade, da obediência e da cruz. De fato, não há outro caminho para a vida e para a missão cristã que não passe por Cristo, por sua humildade, obediência e cruz que o levou a submeter-se totalmente à vontade eterna e redentora do Pai, dispondo sua vida em prol da salvação humana. Essa atitude de humildade de Cristo ultrapassa o mero exemplo e torna-se a norma para nosso próprio relacionamento com Deus e exercício da missão.

Nesse sentido, a humildade deve ser vista como um requerimento da parte de Deus em contraste com o orgulho, a arrogância e a auto determinação características da distância humana de Deus, “sendo a antítese do autointeresse, tornando-se interesse pelo outro” (3). Humildade, portanto, é atribuir às outras pessoas “a dignidade e o respeito que os crentes esperam existir entre si mesmos, especialmente como ambos os grupos são vistos por Deus” (4).

Cristo, ao instruir seus discípulos, afirma que “quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no reino dos céus” (Mt 18.4). Tornar-se humilde para Cristo não se refere a um “ascetismo arbitrário ou a uma falsa modéstia… mas a aceitação de uma posição inferior” (5) como a de uma criança. Diante de Deus os seus servos devem assumir a humildade e “confiar totalmente nele, esperar tudo dele e nada de nós mesmos” (6). Portanto, todos os seguidores de Cristo, sendo jovens, adultos ou idosos, devem assumir, diante dele, sua posição cristã como “crianças” em seu relacionamento com Deus, ou seja, de sincera humildade e dependência total dele.

Assim sendo, o serviço cristão em toda a sua dimensão deve, também, refletir a nossa humildade diante de Deus. Nos humilhamos diante de Deus tanto com expressões litúrgicas de adoração e culto, como também por meio da maneira como nos relacionamos com os nossos irmãos e a consequente forma como entendemos o exercício da missão cristã. O apóstolo Pedro nos exorta a que “sejamos todos humildes uns para com os outros” (1 Pe 5.5), o que estabelece um critério de humildade universalmente permanente na relação entre todos nós cristãos.

Para Pedro há um claro “motivo teológico” (7) para a humildade: o fato de Deus se opor aos orgulhosos e dar graça aos humildes (1 Pe 5.5). Aqui nos deparamos com o contraste entre dois tipos de pessoas (e de cristãos!): soberbos X humildes. Também nos vemos diante de dois tipos de ações de Deus: resistência aos soberbos X dar graça aos humildes. Ao opor-se contra os soberbos, estes não têm acesso a Deus; mas, ao conceder graça aos humildes, Deus se coloca ao lado deles. Este motivo teológico apresentado por Pedro nos ajuda a entender que a vontade de Deus para todos os seus servos é claramente a humildade em todas as dimensões de suas vidas.

No exercício da missão cristã é o caminho da humildade que devemos seguir. Entretanto, nos deparamos com a grande tentação da soberba e do orgulho. O caminho da soberba e do orgulho parece estar presente em todas as fases e momentos da vida missionária, desde os nossos motivos pessoais (me sinto vocacionado e isso me basta), a nossa visão missionária (sou a resposta de Deus para o mundo perdido), a nossa preparação (toda suficiente e a melhor que existe), a nossa estratégia (está acima da teologia por ser pragmática), a nossa teologia (é a única verdadeira em toda a sua forma e expressão), o nosso trabalho no campo (agora que eu cheguei no campo missionário Deus vai começar a agir). O caminho da soberba e do orgulho parece estar especialmente vinculado aos resultados do nosso trabalho missionário: buscamos o sucesso nos resultados numéricos como se disso dependesse a nossa alma e desprezamos como maus missionários (sem vocação ou preguiçosos) aqueles que não produzem números.

O caminho da humildade, por outro lado, é o caminho da submissão à vontade de Deus, é o caminho da obediência vocacional, é o caminho de uma hermenêutica bíblica que não se deixa guiar pela pressão mercadológica dos resultados e dos sucessos aparentes. Trata-se do caminho da cruz e da consagração inteira ao Senhor. A humildade sincera e constante na vida missionária se expressa tanto pela submissão à palavra de Deus, como pelo desejo de seguir sua vontade eterna e seus passos neste mundo, como testemunhas fieis do evangelho pela forma como vivemos, nos comportamos, nos relacionamos e anunciamos. A humildade, portanto, é uma das plataformas mais essenciais da vida e da obra missionária.

Segundo Pedro, um dos resultados mais prováveis para o caminho da humildade na vida missionária é, sem dúvida, “o rugir do leão que anda ao derredor procurando a quem possa devorar” (1Pe 5.8) e, como uma graça concedida de Deus, poder “lançar sobre ele toda a nossa ansiedade, porque ele tem cuidado de nós” (1Pe 5.7). Por isso, a atitude missionária humilde por excelência não é buscar desesperada e freneticamente um relatório numericamente farto e, sim, “humilhar-nos debaixo da sua poderosa mão, para que ele mesmo nos exalte no devido tempo” (1Pe 5.6).

Ao perguntar-nos se o caminho missionário é o caminho do sucesso mercadológico ou o caminho da humildade, devemos responder com outra pergunta: em nossa caminhada missionária quem é o verdadeiro protagonista, nós ou o Senhor? Se em nosso íntimo cremos que somos nós o verdadeiro protagonista da missão, então é que já deixamos a missão há muito tempo. Sigamos o caminho da humildade!

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(1) Ver: GRUNDMANN, W., ταπεινος, em: KITTEL, G., Theological Dictionary of the New Testament, VIII, pp. 1-26.
(2) FERGUSON, S. B., Philippians, pp. 40-41.
(3) REES, P. S., Paul in Philippians – The Adequate Man, p. 41.
(4) MARTIN, R. P., Filipenses – Introdução e Comentário, p. 103.
(5) FRANCE, R. T., Matthew, p. 271.
(6) Ver: GRUNDMANN, W., ταπεινος, em: KITTEL, G., Theological Dictionary of the New Testament, VIII, p. 17.
(7) MUELLER, E. R., 1 Pedro – Introdução e Comentário, p. 259.

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