Sucesso ou martírio: por onde anda a missão cristã?

Requisitos para fazer novos e verdadeiros discípulos

Série Resultados Missionários
Carlos del Pino

Quando falamos sobre o empenho missionário que a igreja vive e leva adiante dia a dia como parte de sua vocação recebida de Cristo, frequentemente mencionamos as palavras de Jesus em At 1.8 “…e sereis minhas testemunhas…”. Nem sempre paramos para encarar de frente o que significa ser uma testemunha de Cristo no mundo, ou muitas vezes ao fazê-lo, acabamos por minimizar seu sentido mais fundamental… O certo, em qualquer que seja o caso, é que a missão se define basicamente aqui pelo fato de que a igreja (e cada cristão individualmente) é a testemunha da encarnação-morte-ressurreição redentoras de Cristo, sendo que todos os seus seguidores devem “anunciar o que ele realizou em sua primeira vinda e chamar o povo para arrepender-se e crer, preparando-se para a sua segunda vinda”.

Além disso, o texto nos ajuda a definir a nossa posição e status (mais do que simplesmente uma “tarefa”) como testemunhas de Cristo, o que nos impede de distrair-nos com conceitos que enfeitam a missão e nos distanciam dela. No caso do texto, as expectativas escatológicas sobre o reino de Deus que tinham os judeus poderiam distrair a igreja de sua posição missionária diante de Deus: “os discípulos, ao invés de se entregarem aos pensamentos sonhadores ou à especulação apocalíptica, devem cumprir sua tarefa de serem testemunhas de Jesus”.

Nesse sentido, deveríamos pensar mais detidamente sobre os caminhos por onde anda a missão cristã neste momento em que os conceitos seculares de “sucesso” se tornaram a chave hermenêutica para compreender-se e realizar-se a missão cristã. De fato, já é mais do que reconhecido o fato de que entregamos a missão às mãos de sistemas metodológicos pragmáticos (com base em sociologismos e antropologismos) que se preocupam basicamente em tornar o campo missionário em algo “produtivo” e que pode ser medido através de uma tabela numérica de conversões, batismos ou número de visitantes. Entretanto, seria a busca pelo sucesso numérico no trabalho dos missionários o caminho missionário que devemos percorrer a qualquer custo?

Melhor possibilidade, entretanto, seria buscar na Palavra de Deus os conceitos que, de fato, devem guiar a caminhada missionária da igreja no mundo e encontrar, dessa forma, os verdadeiros requisitos para a formação de novos discípulos de Jesus Cristo. Um desses conceitos é, certamente, nosso status diante de Deus e do mundo de “testemunhas” de Jesus Cristo. A palavra “testemunha” procede do termo grego que também se traduz por “mártir”. De fato, testemunho e martírio, são conceitos sinônimos e positivamente bem-relacionados no Novo Testamento, que definem muito do que caracteriza a vida e o empenho da igreja em missão no mundo.

Basicamente, o sentido de testemunho ou de martírio na Bíblia “denota alguém que declara fatos que são diretamente conhecidos por ele mesmo. Os fatos em questão, entretanto, são os fatos da história de Jesus, especialmente sua ressurreição”. É muito importante observar, quanto a isso, que o “caráter distintivo do referido objeto desse testemunho, implica também que a declaração desses fatos específicos, bem como o crer, o confessar e o evangelizar estão indissoluvelmente unidos no conceito de testemunho”. Isso nos leva, inevitavelmente, a entender o testemunho como algo muito maior do que simplesmente declarar algum fato conhecido por mim, tratando-se de vincular essa declaração com a crença firme em Cristo, com a confissão clara de nosso compromisso de vida com ele, bem como com o decorrente empenho evangelizador. Isso, portanto, vincula o testemunho cristão missionário tanto com testemunhar um determinado fato, como com o sentido mais profundo de evangelização.

Já a palavra “mártir”, que parece cada vez mais esquecida no vocabulário e na espiritualidade cristã dos nossos dias, assume tanto esse aspecto de “dar um testemunho” como também o de “dar a vida pela verdade”. Nesse sentido, “o martírio, em última instância, é o que é exigido na defesa da declaração de verdade teológica, pois é todo o ato da fala do testemunho, não só a proposição, que finalmente transmite as declarações de verdade sobre o caminho de sabedoria”. Sem dúvida, o mártir é aquele que afirma a verdade por ele conhecida e vivida e que está disposto a dar a sua vida por essa verdade. Portanto, não há melhor definição, nem melhor caminho para a igreja missionária que o testemunho-martírio.

O apóstolo Pedro nos ajuda a entender o testemunho-martírio como caminho vocacional e missionário da igreja e dos cristãos quando afirma que por haver sofrido em nosso lugar, Cristo nos deixou exemplo a ser seguido (1Pe 2.21). Sendo, pois, Cristo o “principal mártir” de Deus, ele se tornou em sua “testemunha fiel e verdadeira” (Ap 3.14), abrindo-nos assim, através de conformar-nos à sua imagem, o caminho da missão. Portanto, uma igreja em pleno estado de missão é uma igreja que segue o caminho do testemunho-martírio e que transforma em sabedoria diária as palavras de Cristo de que “se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34).

O caminho missionário do testemunho-martírio, como sabemos, não é bem visto pela sociedade humana atual, que rejeita claramente esse estilo de vida e de proclamação. Entretanto é justamente em meio a um mundo em que tal caminho é visto literalmente como loucura, fanatismo religioso e total insensatez onde o testemunho-martírio é assumido dia a dia pela igreja e por cada cristão como sendo o nosso caminho missionário no mundo. Dessa forma, nos formamos e crescemos como uma “comunidade de mártires”, que vive o evangelho redentor de Jesus Cristo com sua vida e com suas palavras, buscando seguir e imitar a Cristo em todas as coisas, e também em seu sofrimento.

Nesse sentido, não podemos ver nem viver a missão como se fosse uma estrutura de estratégias, alvos e marketings que garantem o sucesso da plantação de novas igrejas e da conquista de novos espaços. A missão tem tudo a ver, por outro lado, com o nosso compromisso permanente de vida com o Cristo sofredor que se deu por nossa salvação, assumindo o caminho do testemunho-martírio como o nosso caminho missionário no mundo. Portanto, não devemos perseguir o sucesso humano no trabalho missionário, mas seguir com humildade e entrega o caminho da cruz de Cristo.

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