Sucessos e fracassos no caminho missionário – Ex 5.1-23

Carlos del Pino
Série Resultados missionários

Incompreensível para o observador superficial, o coração crente se alegra ao traçar nele, lado a lado, a diferença entre o que é aparente aos olhos do homem e o que realmente está diante de Deus; e, então, entre o poder de Deus e a humildade dos meios e circunstâncias através dos quais ele escolhe manifesta-lo. O objeto que serviria para tirar a nossa fé é o que a incentiva nas circunstâncias que menos promete sucesso.

Com o término do capítulo 4 de Êxodo temos com o início da jornada missionária de Moisés: seus encontros e desencontros, o compromisso que deve ser mantido com Deus e seu pacto redentor, e os fundamentos necessários que foram estabelecidos para a missão. O “natural”, portanto, seria esperar que no capítulo 5 lêssemos sobre o sucesso da empreitada missionária de Moisés, visto o tenso processo vocacional vivido por ele ao longo de sua vida e especialmente a “conclusão” desse processo ocorrido nos capítulos 3 e 4. O capítulo 5, portanto, é muito importante por apresentar-nos a primeira tentativa de retirada de Israel de sua servidão no Egito. É, também, um capítulo importante por introduzir a “dureza de coração do Faraó” não apenas como uma história, mas com o conceito básico da rejeição humana de Deus.

Entretanto, o sucesso esperado parece não haver chegado neste capítulo 5. Ao contrário disso, um inesperado fracasso toma conta de todo o texto. A célebre frase de Moisés, que demonstra toda a sua confiança: “deixe o meu povo ir para celebrar-me uma festa no deserto” (5.1), cedeu lugar à provocativa resposta de Faraó: “quem é o Senhor, para que eu lhe obedeça e deixe Israel sair? Não conheço o Senhor, e não deixarei Israel sair” (5.2), uma resposta, em última análise, contra o próprio Deus.

Ao ler todo este texto nos assombramos com a forma como tudo acabou acontecendo. Parece que as promessas de libertação de Israel, feitas por Deus, não se cumpriram. Parece que as respostas dadas por Deus a todas as objeções apresentadas por Moisés diante da sarça ardente, foram palavras levadas pelo vento. E, além disso, a situação de Israel piorou no Egito, pois tornou-se agora duplamente escravizado pelo considerável aumento do trabalho opressor imposto pelo Faraó a todo o povo (5.6-9). Isso sem falar que agora os próprios israelitas se puseram contra Moisés e Arão (5.20-21). Haveria futuro para essa missão? Terminou antes mesmo de começar? O sentimento de fracasso bateu-lhe às portas!

“Porque um rei que se considerava com um entre os deuses respeitaria o Deus de um povo que era escravo? Se ao menos ele conhecesse o Senhor! Se ao menos ele soubesse que se tratava do Criador dos céus e da terra! Se ao menos ele conhecesse a história de José! Se ao menos ele soubesse das pragas que estavam por chegar! Se ao menos ele soubesse o drama que em breve tomaria lugar no Mar Vermelho! Se ao menos ele soubesse que toda a terra pertence ao Deus de Moisés (Ex 19.5)! Se ele ao menos soubesse, haveria livrado a si mesmo e aos egípcios de algumas terríveis experiências e deixado Israel ir”. Mas o Faraó não conhecia a Deus (5.2) e, devido a isso, aumentou a opressão sobre Israel e rejeitou por completo o pedido de Moisés.

O sentimento de fracasso por parte de Moisés e Arão foi, possivelmente, incrementado pelo tom de voz do Faraó ao negar-lhes a petição (5.2): nas palavras de Faraó encontramos espanto, raiva, irritação, sarcasmo e podemos ouvir tudo isso nesta exclamação, que é seguida por uma recusa enfática e desdenhosa. Um fracasso que assume um grau muito elevado porque, além de não conseguir a libertação do povo, ainda serviu para aumentar o seu sofrimento e a sua carga de trabalho escravo (5.6-9), levando os capatazes israelitas a “assumirem” o lugar de Moisés e irem até o Faraó clamando por piedade (5.15-19), logo após haverem comunicado a decisão de Faraó a todo o povo (5.10-14), destacando com isso o fracasso de Moisés e Arão.

Certamente a tática opressora de Faraó deu os resultados que ele esperava, visto levou o povo a desconfiar de Moisés e, ao fazer com que os israelitas lutassem entre si, ele dividiu o povo, criando conflito entre eles, pois os capatazes se viram em dificuldades diante de Faraó e responsabilizaram a Moisés e Arão de atrair o ódio do Faraó sobre eles e do aumento da carga de opressão sobre o povo. A sarcástica recusa do pedido de Moisés e o rotundo fracasso dos líderes de Israel ao interceder a Faraó, bem como a “inação” de Deus ao não tirar seu povo da escravidão egípcia, descrevem o tremendo fracasso da missão para a qual o “pobre Moisés!” fora tão clara e convincentemente vocacionado.

O que terá passado pela mente e pelo coração de Moisés após o suposto fracasso narrado neste texto? Possivelmente encontramos parte da resposta a esta pergunta nos versos finais do capítulo onde essa cena demonstra os piores resultados do sistema opressivo: da mesma forma como os capatazes se voltaram contra Moisés acusando-o dos problemas do povo, Moisés se voltou contra Deus acusando-o de tratar muito mal o povo. De fato, os questionamentos de Moisés a Deus, devido ao seu fracasso como enviado de Deus para libertar o povo, foram dois: no primeiro, dando ouvido aos capatazes, ele acusa a Deus de maltratar o povo, não cumprindo com sua promessa de libertá-lo da dura e longa escravidão. No segundo, ele acusa a Deus de haver se equivocado ao lhe vocacionar e dar essa missão. Ele mesmo, pessoalmente, tentou mostrar a Deus que enviá-lo de volta ao Egito com a missão de libertar o povo não foi o melhor caminho a se tomar.

Seu fracasso não seria resultado do fato de Moisés, seguindo a orientação divina (confira a sequência em 3.18; 5.3; 8.27), não dizer toda a verdade a Faraó ou, ao menos, dissimular a verdade? A intenção e o propósito de Deus não era, claramente, o de libertar os israelitas da escravidão egípcia? Porque não dizer isso ao Faraó? Em 8.26-29 claramente notamos que, em nenhum momento de todo o processo, Faraó estava devidamente informado por Moisés que a intenção não era retornar ao Egito e à condição de escravidão. E a situação se complica, não apenas pelo episódio das parteiras que também mentiram a Faraó (1.15-21), mas também quando lemos o nono mandamento que proíbe “dar falso testemunho contra o teu próximo” (20.16). Obviamente, a totalidade do tema de constituir-se uma mentira é muito complexo, mas, possivelmente, Faraó não seria considerado como um “próximo”, visto que, “consideramos a Faraó como uma pessoa que perdeu o direito à verdade desde que ele usou a verdade para oprimir injustamente aos israelitas.”

O que fazer quando sempre esperamos confiantemente o sucesso e o êxito na empreitada missionária, havendo sido claramente vocacionados e preparados para isso, e nos deparamos com um fracasso após outro? Porque o fracasso ou, ao menos, esse sentimento de que em várias situações fracassamos na missão que recebemos de Deus, nos persegue massacrante e constantemente? Como internalizar o fato de que o sucesso na obra missionária jamais poderá ser medido por instrumentos humanos?

A questão do fracasso, especialmente na obra missionária, tem muito a ver com as expectativas de resultados criadas pelos missionários, pelas igrejas enviadoras e mantenedoras e também pelas agências missionárias. Expectativas que, nos nossos dias, surgem dos conceitos empresariais de sucesso e fracasso e que já foram assimilados (sacralizados) em boa parte dos procedimentos relacionados com a obra missionária. Podemos imaginar com que expectativas Moisés retornou ao Egito e se apresentou diante do Faraó com a demanda de Deus e, mesmo sabendo que Deus lhe havia prevenido de que Faraó não os deixaria sair a não ser que uma mão poderosa o forçasse a isso (3.19-20), preferiu seguir sua convicção de que o sucesso é sempre sagrado e sinal da bênção de Deus, o que lhe produziu um profundo sentimento de fracasso, bem como as duras acusações do final do capítulo.

Por outro lado, sabemos que Deus se move livremente em meio às ações humanas, sejam as dos cristãos fieis, sejam as dos incrédulos que andam longe de Cristo, ambos dependentes da soberana ação de Deus no mundo. Seus planos eternos e suas intenções redentoras sempre se cumprem, como no caso de Paulo e sua equipe em At 16.1-10, e também aqui no caso do êxodo de Israel da casa da servidão. Como seus servos nos dedicamos a ele e ao seu serviço, vendo os sinais do seu reino em meio aos supostos fracassos e sucessos ao longo de toda a nossa caminhada missionária. Deus age em todas as situações e as usa conforme os seus propósitos: o que consideramos como fracassos na obra missionária (poucas conversões, nenhuma conversão, demora no estabelecimento de uma nova igreja, relatórios pouco triunfalistas numericamente, etc), bem como o que comumente se considera como sucesso (ainda que essa medição numérica possa indicar sérios fracassos quanto ao conteúdo e compreensão da fé, do discipulado, da ética e da missão), são formas como Deus ordena as situações para que os seus caminhos missionários expressem a sua vontade e seus desígnios no mundo dos seres humanos. Da nossa parte, entre os supostos sucessos e fracassos da obra missionária, seguimos firmes e confiantes os passos de Deus neste mundo!

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