Tenho um chamado e quero me casar

Nany Castro

Missionários contam suas experiências e aconselham vocacionados que sonham com o matrimônio

O dia dos namorados já passou, mas a pressão para encontrar o “par ideal”continua nos outros 364 dias do ano. Quando não são os pais querendo apresentar aquele “partido abençoado”, aparecem os amigos que conhecem alguém que é “a sua cara”. Mas, se surgir um visitante da mesma faixa etária no culto? Piorou! A cobrança para o casamento pode ser maior ainda para pessoas que tem o objetivo de fazer missões transculturais.

O Morávios entrevistou três casais de missionários de diferentes organizações. Todos eles eram solteiros quando disseram “Sim” ao chamado de Jesus para fazerem discípulos de todas as nações e encontraram o “amor” quando já estavam completamente envolvidos na Obra.

Era uma vez…

Após concluir um treinamento e se juntar à Operação Mobilização (OM), Gildélia Moromisato recebeu o desafio de iniciar uma classe de missões em uma igreja local juntamente com Júlio. Ao planejarem as atividades do ministério, os dois foram notando que poderiam partilhar mais. “Percebemos que estávamos correndo a mesma corrida, estávamos andando lado a lado. Tudo fez sentido, desde afinidade, propósitos, valores e convicções de fé, além do desejo de compartilhar juntos a vida”, conta Gil, como é mais conhecida.

Em 2005 – enquanto estavam na Jocum (Jovens com uma Missão ) – Kivia e César se conheceram na Escola de Aconselhamento e partiram no ano seguinte para a Guiné Bissau. Após cinco meses em campo, Kivia começou a gostar e orar pelo – ainda – amigo. Depois de sete meses de espera, a jovem pediu a Deus uma resposta concreta se César seria ou não seu marido e, minutos depois, ele apareceu e declarou o seu interesse. Com um ano e dois meses entre amizade especial, namoro e noivado, a família Morais estava formada.

A administradora Cibele* havia trabalhado na China em 2008, vivido no México em 2010 e já estava comprometida com a equipe chinesa para voltar ao campo quando conheceu o economista Ricardo*. Ele tinha atuado na implantação de igrejas no leste da Europa e da Ásia em 2010, mas retornou ao Brasil com a convicção de que aqueles não eram o seu lugar. Durante uma capacitação no sul do País, Cibele e Ricardo se encontraram. “No meu último treinamento conheci o homem da minha vida, não foi fácil deixar os planos que já tinha, porém Deus usou a China para que eu chegasse até aquele momento. Conhecemo-nos e nos casamos em seis meses, agora com quase três anos de casamento estamos saindo como família para o campo”, revela a missionária, que hoje trabalha no Oriente Médio com seu esposo.

Check List dos “céus”

Para os entrevistados, quando há um interesse por outra pessoa o vocacionado precisa ficar atento a alguns detalhes, como o mesmo chamado ministerial e o nível de maturidade espiritual, além do objetivo de vida.

“Devemos buscar se a outra pessoa realmente ama a Cristo, se tem o mesmo desejo de servir onde Deus enviar, se está disposta a abrir mão do que seja necessário. Sempre observar os valores de vida, entendimento de ministério, relacionamento com Deus e família, formação intelectual, humor e atração física. Uma boa medida é ver se essa pessoa o aproxima de Deus ou não”, recomenda o casal Ricardo e Cibele.

Gil reitera que não há um modelo: “Não existe perfil ideal, mas propósitos de vida. Se o propósito não for o mesmo será muito difícil seguir e o preço pode ser altíssimo. Não significa que ter propósitos iguais ou semelhantes impedirão dificuldades, mas a diferença é que saberão para onde estão indo e querem ir juntos ainda que custe algo, e isso sem dúvida fará diferença nas horas difíceis.”

Ih! Casei com um missionário!

O casamento entre missionários “é como qualquer outro”, lembra o casal Morais: “ A diferença é estar disposto a viver onde Deus nos enviar! Sim, existem problemas particulares, pois somos pessoas comuns e […] e, por estarmos em outra cultura acabamos convivendo com pessoas bem diferentes de nós em ideias, crenças e costumes.”

De acordo com Gil a convicção do casal ajuda a resolver conflitos: “As pressões da vida missionária podem ser pontos altos de dificuldades entre casais, mas quando ambos sabem que Deus os chamou e porque estão onde estão terão condições de juntos resolverem ou suportarem tais pressões”.

Para Cibele e Ricardo o casamento é um projeto de Deus para abençoar as famílias da Terra e para isso deve ter Cristo como centro. “É necessário abrir mão de muitas pequenas coisas, como por exemplo, estar disposto a não permanecer na mesma casa ou cidade por muito tempo, criar filhos longe da família, […] aprender uma nova língua etc. Já não existe um sonho individual, mas sim um plano ministerial que envolva os dois”, completam.

De volta para o meu campo

Quando o assunto é casamento e retorno para o campo missionário, a opinião é a mesma: é necessário um tempo de adaptação antes de enfrentar os desafios de uma nova cultura.

Para Cibele e Ricardo, os casais que namoram ou se conhecem há mais tempo devem esperar um ou dois anos para irem ao campo missionário. “Quando decidimos nos casar vimos que precisávamos de um tempo para nos conhecermos melhor como casal, sem pressões de um futuro campo. Vimos que Deus não estava chamando a gente para sair, mas para ficar. Nosso tempo durou três anos, tempo de nos conhecermos e vivermos uma vida normal, que não estava atrelada a um ministério. Vimos que muitos casais são somente parceiros de ministério e quando Deus muda o cenário, eles não têm nada mais em comum”, opinam.

“Como agência sempre dizemos que depois de um ano de casados é o ideal, especialmente por causa da adaptação. Adaptar-se ao casamento e a uma nova cultura, língua […], tudo ao mesmo tempo pode ser bem complicado. Mas em tudo existem exceções. Quando dois missionários, por exemplo, já vivem fora do seu país e se encontram em outro campo estão mais preparados para uma adaptação. Em todos os casos é sempre bom que o casal tenha um tempo sem tantas pressões para se conhecer como casal e se preparar para uma nova fase”, orienta a missionária da OM.

O que esperar quando se está esperando

Para Gil a melhor é seguir em frente para o cumprimento da vocação, sem se distrair. “Se tem convicção que Deus te chamou para missões, siga seu chamado e a pessoa que Deus tem para você estará em seu caminho, nem atrás, nem à frente, mas ao seu lado. Enquanto isso, desfrute do que Deus tem preparado pra você como solteiro e sirva-o com alegria, você se surpreenderá com o quanto Deus fará”, aconselha.

Os missionários Cibele e Ricardo reforçam que é necessário viver uma vida plena e santa diante de Deus quando se está solteiro. “A qualquer momento isso [ser solteiro] pode mudar, porém é necessário viver cada etapa do grande projeto de Deus, que é perfeito. Confie que Deus sabe o que é melhor para você, mesmo que isso seja permanecer solteiro. Não espere encontrar alguém para depois obedecer à vontade de Deus, esse alguém pode estar no caminho de sua obediência”, aconselha.

O casal Morais acrescenta: “Obedeçam a Deus naquilo que Ele tem te chamado para fazer, guardando seu coração Nele, e no tempo certo Ele irá preparar a pessoa certa para juntos continuarem a cumprir a missão. Este guardar o coração é manter uma vida de relacionamento diária com Deus, sabendo ouvir sua voz e entendendo sua vontade”.

*Os nomes foram alterados para não comprometer a segurança dos missionários.

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