Quando a teologia e a missão pulsam juntas no mesmo coração

Gabriel Neubarth

Um dos grandes problemas da história do cristianismo recente foi o divórcio entre a teologia e a missão. É comum ouvir teólogos falarem que a prática missionária foi o que trouxe a maioria dos problemas doutrinários para o seio da igreja, como também é comum ouvir missionários afirmarem que a teologia só serve para dificultar o avanço da obra missionária. No entanto, será que bíblia sustenta tal dicotomia?

O objetivo dessa breve reflexão é mostrar como a bíblia trata do relacionamento entre a teologia e a missão. Muitas poderiam ser as formas de abordar esse tema biblicamente, escolherei, no entanto, trata-lo à luz da estrutura da carta de Paulo aos Romanos. O Apóstolo estrutura a sua carta em três blocos distintos, porém interligados, como será mostrado a seguir:

Teologia

Nos primeiros onze capítulos de sua carta aos Romanos, Paulo escreve um verdadeiro tratado teológico. Após sua saudação no primeiro capítulo, o apóstolo começa a expor a sua posição teológica acerca do evangelho de Jesus Cristo.

A primeira seção desse bloco (Rm.1.8 – 3.20) objetiva expor a pecaminosidade do homem. Inicialmente, Paulo trata da universalidade do pecado entre os gentios, argumentando sobre como eles não adoram a Deus mesmo mediante a revelação Dele na criação, depois passa a falar da universalidade do pecado dentro do povo judeu, argumentando sobre a transgressão por parte deles, ao não cumprirem a lei em sua totalidade. Por último. afirma que toda a humanidade se constitui pecadora, pois “todos pecaram”.

A segunda seção (Rm. 3.21- 5.21) desse bloco fala acerca da justiça de Deus através da justificação pela fé. Ele argumenta essa afirmação desde o patriarca Abraão, chegando à justiça que procede de Cristo Jesus.

A terceira seção (Rm. 6 – 8) desse bloco fala sobre a liberdade do pecado advinda da maravilhosa graça de Deus, culminando no glorioso capítulo oito, no qual se afirma a supremacia da obra Cristo na redenção daqueles a quem o Pai escolheu para si.

A quarta, e ultima seção desse bloco (Rm. 9-11), fala acerca do tratamento de Deus com a nação de Israel. Paulo com esse propósito fala sobre a eleição incondicional da parte de Deus, bem como da rejeição por parte desse povo das verdades de Deus, encerrando com um vislumbre do futuro reservado para essa nação.

Resumi nos parágrafos acima os pontos teológicos tratados nos onze primeiros capítulos de Romanos. Meu objetivo não é de maneira alguma exaurir o tema, mas trazer a memória o labor teológico do apóstolo nesse momento inicial de sua carta. Paulo dedica muito de seu tempo às verdades teológicas, mostrando assim que de fato elas são muito importantes.

Ao contrário do que muitos pensam, todos os cristãos tem em si uma teologia. Pois teologia, de uma maneira simples, é o conhecimento que temos acerca de Deus e de sua obra. No entanto, a teologia para Paulo não é um fim em si mesmo, ela produz algo no coração do apóstolo. Para ele, teologia não é algo árido, mas sim algo que produz a mais profunda e vera adoração. Ficam então os questionamentos: Qual é a sua teologia? O que você conhece de Deus e de sua obra? E mais ainda: Aonde a sua teologia esta lhe levando?

Adoração

Esse é o segundo bloco da carta (Rm. 11-33-36), mesmo sendo bem mais curto do que o primeiro é de vital importância para a compreensão da carta aos Romanos. Alguns chegam a afirmar que esses versos são o âmago de tal epistola. Após todo esse trabalho teológico, Paulo irrompe em adoração a Deus declarando:

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.

Paulo fica maravilhado com a grandeza de seu Deus. Ele afirma que Ele é sábio, e que é muito maior do que a nossa mente consegue compreender. Ele não precisa de ninguém que o ensine, ele sabe de tudo, tem todo poder e toda a autoridade. Ele é o Deus de quem Paulo falou com tanta propriedade nos capítulos anteriores. Tudo foi feito por ele e para Ele.

Em face de tudo isso, Paulo só consegue concluir o seu labor teológico glorificando aquele que é a razão de todo o seu labor: “A Ele seja a gloria eternamente amém”. A teologia de Paulo era temperada com o seu anseio pela gloria de Deus. Assim, sua teologia produzia em seu coração cada vez mais e mais adoração a Ele.

O que podemos aprender até aqui é que toda a teologia apregoada pelas Sagradas Escrituras conduzia a mais tenra e vera adoração. Temos aqui um alerta: O nossa labor teológico tem feito com que amemos e adoremos mais ao nosso Deus? Ou será que amamos estudar teologia, mas esquecemos de amar o Deus que é a razão da teologia?

Piedade

Depois de mostrar como, dentro da estrutura da carta aos Romanos, a teologia conduz a adoração, gostaria de demonstrar como a teologia e a adoração geram piedade.

Um professor meu chamava os capítulos finais de Romanos de “teologia do pois”. Isso porque é com essa expressão que o apóstolo liga toda a sua teologia e adoração aos ensinamentos práticos posteriores. O que Paulo almejava ensinar é que toda a teologia apresentada se fosse compreendida por seus leitores, levariam consequentemente, os mesmos a uma vida de piedade.

Em nosso tempo, um conceito muito esquecido por nós reformados é a piedade. João Calvino, em seu primeiro catecismo, a define como: “um sentimento verdadeiro que ama a Deus como Pai e O reverencia como Senhor; apropria-se de sua justiça e teme mais o ofendê-Lo do que enfrentar a morte”.

Piedade é viver aquele que cremos e pregamos. E é sobre isso que Paulo trata nos últimos capítulos de sua carta aos Romanos. Esses capítulos tratam de temas bastante práticos, tais como: culto diário, amor ao próximo, não ofender e escandalizar o irmão mais fraco da fé e etc. Aprendemos com isso que a nossa teologia e adoração precisa desembocar em uma vida “digna do evangelho ao qual fostes chamados”.

Missão

Talvez você possa estar pensando que tal reflexão não tenha nada a ver com a obra missionária. Você, no entanto, pode mudar de ideia após a apresentação de meu ultimo argumento, a saber: tudo isso é fruto de um coração missionário.

Que Paulo era um missionário todos já sabem (mesmo que muitas vezes façam questão de esquecer disso) mas o que muitos esquecem é que o seu mais importante tratado teológico (a carta aos Romanos) foi escrito por um anseio missionário de seu coração. Ele assim afirmou no final de sua carta:

“Mas agora, não havendo nestas regiões nenhum lugar em que precise trabalhar, e visto que há muitos anos anseio vê-los, planejo fazê-lo quando for à Espanha. Espero visitá-los de passagem e dar-lhes a oportunidade de me ajudar em minha viagem para lá, depois de ter desfrutado um pouco da companhia de vocês” – Rm.15.23-24.

Paulo escreve sua carta aos Romanos por querer dar a oportunidade aquela igreja de participar do avanço do evangelho à Espanha. Paulo queria fazer missões e precisava da ajuda da igreja de Roma para isso. Ao escrever cada uma das linhas dessa epistola, ao dissertar sobre os mais profundos temas da teologia, Paulo tinha em seu coração o desejo de fazer Cristo conhecido entre as nações. Paulo é a prova viva de que a teologia e a missão podem pulsar firmes no mesmo coração.

Não existe um Paulo teólogo e outro Paulo missionário. Existe apenas o Paulo apóstolo que canalizava toda a sua teologia para o melhor cumprimento da missão que Deus havia lhe outorgado. Da mesma forma devemos prosseguir na nossa geração. Que sejamos aqueles que romperão com a dicotomia vigente entre a teologia e a missão, vivendo a integralidade de nossa fé em cada aspecto de nossa vida.

Em suma, aprendemos com a epístola aos Romanos que a teologia conduz a adoração; ambos conduzem a piedade, e todas essas ações devem brotar de um coração missionário. Que Deus nos faça teólogos com coração missionário e missionários com coração de teólogos.

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Gabriel Neubarth

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