Trazendo a igreja novamente à missão – At 15.1-41

Rev. Carlos del Pino
Série Dias Índios

“Então os apóstolos e os presbíteros, com toda a igreja, decidiram…” (15.22)
“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…” (15.28)

Recentemente, durante uma aula de eclesiologia missionária que dava em um curso de pós-graduação, ouvi a seguinte reação de um aluno: “na missão da igreja precisamos quebrar a barreira denominacional” (!)

Nas últimas décadas a igreja experimentou um comprometedor esvaziamento do seu lugar na missão, abrindo espaço para o estabelecimento em nosso meio de agências missionárias não-denominacionais (internacionais e nacionais), oriundas de diversas tradições teológicas e eclesiásticas. Essas agências se firmaram entre nossas lideranças como portadoras únicas do correto conceito de missiologia, da eficaz estratégia missionária e como legítima administradora da missão. Com o passar do tempo, a igreja começou a ver-se meramente como fornecedora de pessoas vocacionadas e de recursos para que as agências não-denominacionais continuassem a decidir as prioridades, os alvos, os perfis e a utilização dos nossos “recursos” humanos e financeiros. Parece um completo desequilíbrio: enquanto a igreja fornece o missionário e todo o seu sustento, as agências não-denominacionais decidem, por si só, o que fazer com ambos!

Um desequilíbrio que precisa chegar ao fim rapidamente. A completa recuperação do ministério da igreja na missão é uma das nossas prioridades, visto que o exercício desse ministério está descrito na palavra de Deus. Podemos vê-lo em At 15.

A igreja no primeiro século assumiu o seu lugar na missão. Quase todo o capítulo (vv.1-35) descreve a ação da igreja na administração e solução das dificuldades teológicas surgidas em decorrência do trabalho missionário realizado entre os gentios. Na parte final desse capítulo (vv.36-41) vemos a igreja local solucionando um sério conflito surgido dentro da própria equipe missionária. Em ambas as dimensões é efetiva a participação direta da igreja na obra missionária. Isso é uma parte constitutiva de seu ministério.

Para auxiliar-nos na recuperação do papel que a igreja deve exercer, por mandato de Deus, na missão, gostaria de indicar os seguintes elementos derivados de At 15:

1. Seu ministério com a teologia contextual da missão: na realização do trabalho missionário surgiu uma dificuldade de ordem teológica que precisou ser devidamente compreendida e tratada pela igreja. “Se vocês não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos” (15.1). Os cristãos de origem judaica queriam impor aos cristãos de origem gentia sua própria interpretação da lei de Moisés. Uma interpretação que afetava diretamente o conceito de salvação e a própria vivência diária da fé. Essa má interpretação teológica “levou Paulo e Barnabé a uma grande contenda e discussão com eles” (15.2) e a igreja tomou providências para “tratar dessa questão com os apóstolos e com os presbíteros” em Jerusalém (15.2).

A polêmica continua em 15.5-6 com os judeus convertidos, simpatizantes do partido religioso dos fariseus e de sua interpretação teológica que considerava necessário que os gentios convertidos se circuncidassem e obedecessem as exigências da lei de Moisés. A situação exigiu uma atitude séria e oficial da igreja, levando os apóstolos e presbíteros a se “reunirem para considerar essa questão” (15.6).

A elaboração teológica da igreja, fundamentando o conceito e a prática da salvação, visando o desenvolvimento saudável da obra missionária está muito bem descrita neste texto. A resposta da igreja à demanda dos cristãos judaizantes, que exigiam dos cristãos gentios assumirem sua interpretação teológica do Antigo Testamento, fora clara: “de modo nenhum!

Cremos que somos salvos pela graça de nosso Senhor Jesus, assim como eles também” (15.11). A posição assumida pela igreja refletia o processo teológico de convencimento da igualdade entre todos os seres humanos diante de Deus (especialmente entre judeus e gentios naquele contexto) desenvolvido em At 10 (veja 15.7-10). Além disso, a igreja examinou o fundamento bíblico que sustenta a posição assumida, mencionando o texto de Am 9.11-12 (15.16-18). Ou seja, havia uma base bíblica para considerar os gentios e os judeus iguais diante de Deus e da graça salvadora de Cristo.

Diante da discussão e elaboração teológica realizadas, a igreja procura contextualizar essa teologia à realidade vivida pelas comunidades cristãs gentias. A igreja, sabedora que “desde os tempos antigos, Moisés é pregado em todas as cidades, sendo lido nas sinagogas todos os sábados” (15.21), reconheceu que a teologia judaica e sua interpretação de Moisés eram muito conhecidas por todo o mundo da época devido a disseminação dos judeus por toda parte. Isso poderia causar certo escândalo e prejuízo à pregação do evangelho caso os gentios convertidos não observassem, ao menos, alguns elementos básico como abster-se de “comida contaminada pelos ídolos, imoralidade sexual, carne de animais estrangulados e sangue” (15.20). Assim, mediante esse trabalho hermenêutico, a igreja contextualiza sua teologia visando o progresso da obra missionária.

É preciso, sem mais demora, trazer a igreja novamente ao seu ministério intransferível de assumir a teologia contextual da missão. A missão precisa de teólogos sérios e de uma igreja em constante processo teológico!

2. Seu ministério de assumir-se como a responsável pela missão: ma outra dimensão do envolvimento da igreja com a missão foi que, a partir do destempero teológico surgido no campo missionário e visando seu equilíbrio como vimos acima, a igreja convocou-se em um importante concílio (15.6), conhecido como “Concílio de Jerusalém”. Aliás, At 15 nada mais é do que o registro em ata deste concílio. Os apóstolos e presbíteros foram convocados em Jerusalém para discutirem a questão e deliberarem a respeito. Essa assembléia (15.12) tinha a incumbência de avaliar a situação e elaborar um posicionamento teológico e eclesiástico fundamentado na palavra de Deus e promotor da expansão sadia da obra missionária entre os gentios.

É importante observar que a igreja não deixou de assumir sua responsabilidade. Não a transferiu para os missionários Paulo e Barnabé envolvidos diretamente na questão, nem deixou o posicionamento teológico nas mãos das comunidades cristãs nascidas sob a pressão judaizante. A igreja convocou um “Supremo Concílio”, com todos os gastos de viagem e hospedagem que isso também envolvia na época, para tratar da questão missionária. Nesse sentido, a convocação do Concílio de Jerusalém demonstra o quanto a igreja valorizava sua responsabilidade para com as questões surgidas no contexto da missão. A igreja tinha bem claro que assumir-se como a responsável tanto pela produção da teologia da missão, como pelo procedimento do trabalho missionário, constituía seu ministério recebido de Deus.

Precisamos, sem mais transferências, trazer a igreja, novamente, à sua inevitável responsabilidade para com todas as dimensões do trabalho missionário. Precisamos de um envolvimento sério e responsável da igreja na missão!

3. Seu ministério de acompanhar, passo a passo, o desenvolvimento da missão: é significativo perceber como a igreja naqueles dias se envolveu com a questão teológico-missionária que estava sendo debatida. Não apenas as várias igrejas locais enviaram seus presbíteros para reunirem-se com os apóstolos em concílio, como individualmente acompanharam cada passo dado para a solução do dilema e definição de uma teologia da missão.

Inicialmente, “Paulo e Barnabé foram designados, juntos com outros, para irem a Jerusalém tratar dessa questão… A igreja os enviou” (15.2-3). Observamos, ainda, que ao longo de sua viagem a Jerusalém, relatavam a todas as igrejas “como os gentios tinham se convertido, essas noticias alegravam muito a todos os irmãos” (15.3). Uma vez em Jerusalém “foram bem recebidos pela igreja, pelos apóstolos e pelos presbíteros” (15.4).

Essa ênfase demonstra que não apenas a “igreja-concílio”, mas principalmente a “igreja-povo de Deus” entendiam como parte fundamental de seu ministério dar o devido acompanhamento ao trabalho missionário e às estruturas eclesiais e eclesiásticas criadas para a sustentação dessa obra em todas as suas dimensões.

Precisamos, com um empenho redobrado, que todas as nossas igrejas e concílios se convençam de que parte de seu ministério é acompanhar adequadamente todos os níveis envolvidos na missão. A missão depende do acompanhamento permanente e digno de todas as igrejas!

4. Seu ministério de discipular e orientar as novas igrejas: o Concílio de Jerusalém não tomou uma decisão, voltou para casa e esqueceu-se dela. Ao contrário, planejou e conduziu um programa de orientação das igrejas gentias recém organizadas. Entendiam o discipulado e a orientação teológico-pastoral como parte de seu ministério missionário. A decisão de escrever-lhe uma carta (15.20) entregue pessoalmente por uma comissão composta por Paulo, Barnabé, Judas e Silas (15.22) mostra que não abandonaram as novas igrejas gentias à sua própria sorte.

A reação da igreja em Antioquia ao receber a carta também demonstra que estes irmãos aguardavam pela decisão com o coração humilde e disposto a acatá-la como orientação de Deus para suas vidas. Chegando a Antioquia, reuniram a igreja, leram a carta e os irmãos “se alegraram com a sua animadora mensagem” (15.31). A disposição da igreja gentia em receber do concílio o ensino e a orientação para sua vida como igreja-missão é tão importante quanto a disposição humilde do concílio em avaliar a situação e decidir de forma sensível à palavra de Deus (15.16-18), à orientação do Espírito Santo (15.28) e ao contexto gentio (15.19). Encontramos essa mesma preocupação quando Paulo e Barnabé resolvem partir em uma nova viagem para “visitar os irmãos em todas as cidades onde pregamos a palavra do Senhor, para ver como estão indo” (15.36). O trabalho pastoral de discipular, ensinar, aconselhar e orientar as novas comunidades cristãs, frutos da obra missionária, faz parte do ministério dado por Deus.

Precisamos, por parte da igreja, de um maior envolvimento com as pessoas e com as comunidades pastoreando e discipulando cada irmão. Precisamos, por parte dos missionários, de uma maior disposição e humildade para receberem ensino, conselho, discipulado e orientações.

5. Seu ministério de encomendar à graça do Senhor o seguimento da missão: ao planejarem, Paulo e Barnabé, uma segunda viagem missionária-pastoral “tiveram um desentendimento tão sério que se separaram” (15.39). Desentenderam-se por causa de João Marcos (15.37-38). Agora a dificuldade não foi de ordem teológica, mas metodológica. O problema não foi pressão externa, como no caso dos judaizantes, mas uma desavença dentro da equipe missionária ao definirem o procedimento que seria seguido na próxima viagem.

A igreja em Antioquia certamente interferiu nesse novo problema. Sua interferência não está registrada com detalhes, mas o fato de Barnabé seguir para Chipre com Marcos (15.39), enquanto Paulo retorna às igrejas recém fundadas levando a Silas (15.40), “encomendados pelos irmãos à graça do Senhor” (15.40), indica que a igreja agiu com sabedoria ao desmembrar a equipe em duas. A igreja compreendeu essa dimensão de seu ministério junto à missão, tanto quanto os missionários envolvidos compreenderam igualmente que deveriam se submeter à decisão da igreja.

Dar o devido seguimento à obra missionária encomendando-a à graça de Deus é um ministério que coloca nas mãos da igreja (local e conciliar), e não simplesmente na pessoa do missionário ou de agencias não-denominacionais, a valorosa responsabilidade de buscar intensamente a vontade de Deus para a missão, pelo estudo sensível e humilde da sua palavra, e vivê-la dentro de uma espiritualidade que se renova diariamente e é passada para as diversas equipes missionárias.

Precisamos, com grande urgência, de um novo despertar espiritual e missionário em todas as nossas igrejas e concílios, assumindo nossa responsabilidade diante de Deus para com a missão no mundo.

Peçamos que o Deus da missão nos ajude a trazer sua igreja novamente para dentro da missão!

Deixe uma resposta