Um missionário bem-sucedido – 2Tm.2.15

Carlos del Pino
série Resultados Missionários

“O êxito no ministério não é avaliado por números (e.g, pessoas, programas, dinheiro), mas pelo crescimento do amor das pessoas por Deus e de seu conhecimento a respeito dele. Essa é a única maneira de apresentar ´todo homem perfeito em Cristo´ (Cl 1.28).” (1)

Todos nós que estamos no campo queremos ser considerados missionários bem-sucedidos! Aparentemente é um desejo legítimo quando o vemos a partir da perspectiva sócio-cultural na que vivemos, em que o conceito de sucesso (em todos os sentidos da vida) é uma das maiores e mais importantes diretrizes para a vida humana. E, por isso, nos esforçamos muito para que o sucesso na obra missionária se torne uma realidade ou, ao menos, para que aparente ser uma realidade. Nessa tentativa e busca pelo sucesso missionário, a pergunta que nos guia e que frequentemente abastece de sentido nosso trabalho é: o que, de fato, a missão e as igrejas mantenedoras esperam de mim?

Sem dúvida, essa é uma das perguntas que martelam com intensidade e insistência na mente e no coração dos missionários. Uma pergunta que acaba não deixando espaço suficiente para que outras também nos levem à reflexão e à busca por respostas apropriadas: com essa pergunta em mente já não conseguimos pensar objetiva e biblicamente sobre, por exemplo, o que Deus espera de mim no campo missionário. Ser um missionário bem-sucedido (como também ser um pastor bem-sucedido) é uma permanente busca que vivemos nos nossos dias que vai sendo moldada mais pelas atuais expectativas seculares que pela perspectiva da palavra de Deus.

É como se não nos contentássemos com nada menos do que ser o missionário (ou o pastor) da moda: aquele que plantou grandes igrejas em pouco tempo, que teve experiências exóticas e privações dos piores tipos… que tem muitas experiências curiosas e marcantes de vitórias e sucessos no campo missionário. A verdade é que não é nada fácil chegar e manter-se nesse status, pelo simples fato de não se fundamentar nas expectativas de Deus, reveladas na Bíblia, acerca das nossas vocações e ministérios, como também da definição daquilo que chamamos de “campo missionário”.

Quando pensamos ou falamos sobre um obreiro bem-sucedido, qualquer que seja o obreiro, é fácil chegarmos ao conhecido texto de 2 Timóteo 2.15, aplicar-lhe o nosso próprio conceito atual de “sucesso”, extraindo, assim, procedimentos de trabalho missionário estranhos ao texto: “procure apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade”. Possivelmente estejamos fazendo a pergunta equivocada quando ler e apresentar este texto como resposta. Ao invés de responder com 2Tm 2.15 à pergunta “o que a missão e os mantenedores esperam de mim?”, deveríamos apresenta-lo como resposta à pergunta “o que Deus espera de mim no campo missionário?” (2)

Este texto de 2Tm 2.15, obviamente, tem o seu lugar como parte da resposta bíblica acerca das expectativas existentes ao redor do ministério missionário e nos leva a perguntar-nos honestamente qual é o significado bíblico e a extensão ministerial da palavra “bem-sucedido”, já que essa é uma das principais preocupações do nosso “século”; em outras palavras, quem é o obreiro aprovado na perspectiva do apóstolo Paulo e como isso se aplica na vida e no ministério dos missionários?

Inicialmente devemos lembrar-nos de que este versículo é parte de um conjunto textual em que Paulo o orienta pastoralmente quanto a identificar-se com Cristo em seus próprios sofrimentos (v.11-13), suportando-os à exemplo de Paulo (v.3,9,10) para que o evangelho avançasse e os eleitos de Deus alcançassem a salvação (v.10). Nesse processo, da mesma forma como Timóteo havia recebido as instruções do apóstolo, ele deveria confiá-las a homens fieis (v.2), para que não se envolvam em “batalhas verbais completamente inúteis… os líderes e futuros líderes deveriam ser advertidos a fim de que não se descarrilhassem pelos caminhos laterais dos debates inúteis” (3) que nos distancia do exercício de um ministério aprovado e bem-sucedido.

Em outras palavras, o sucesso ministerial de Timóteo seria consequência direta de instruir os homens fieis (v.2) a “permanecer firmes no cumprimento da tarefa do ensino, pregação, etc encomendada por Deus. Em meio a suas muitas aflições que olhem a Cristo Jesus, o Salvador ressuscitado e reinante, que concede fortaleza e recompensa aos seus fiéis.” (4) Timóteo deveria, portanto, esforçar-se ao máximo para ser um obreiro “que não tem do que se envergonhar. Esse esforço e busca (“procure” apresentar-se… – v.15) é uma atitude ministerial e pessoal do obreiro deve acompanha-lo permanentemente e afetar a todas as dimensões de sua vida. Esse esforço deveria levá-lo, necessariamente, a duas atitudes.

A primeira é a de “apresentar-se a Deus aprovado”, o que confirma a possibilidade da reprovação no exercício ministerial (5). Uma vez que esta expressão tem um sentido jurídico (como em At 27.24; Rm 14.10; 1Co 8.8), nos conduz a uma atitude profundamente escatológica de realização presente, ou seja, vivemos permanentemente diante do tribunal de Deus e, não apenas no dia do juízo final, mas inclusive agora, devemos buscar a aprovação de Deus em toda a nossa vida e missão.

Essa perspectiva escatológica que vivemos já agora nos enche de temor em quanto às nossas atitudes cristãs e missionárias e, ao mesmo tempo, nos concede um claro direcionamento para o nosso dia a dia e para os nossos ministérios. Saber que vivemos permanentemente diante de Deus e que seus olhos estão sempre postos em nós, controla e direciona o nosso desejo e empenho pelo verdadeiro conceito e prática de “sucesso” e de “realizações” à luz da palavra de Deus.

A segunda atitude é a de “manejar corretamente a palavra da verdade”, que é onde se expressa as categorias de aprovado e reprovado. Uma atitude missionária bem-sucedida está relacionada com a forma como manejamos a palavra de Deus; nesse sentido, somos basicamente ministros de Deus, antes que conversadores inúteis e profanos a exemplo Himeneu e Fileto (v.16-18). Atualmente é muito comum pensar-se que manejar bem a palavra de Deus é sinônimo de academicismo exegético, de compreensão e uso adequado de terminologias teológicas ou da centralização de um púlpito expositivo (6), ou, indo para um outro extremo, sinônimo de usar-se a Bíblia como manual de autoajuda. Entretanto, “a linha construtiva para Timóteo seguir é dar provas das suas próprias qualidades como transmissor eficiente e totalmente fidedigno da sã doutrina” (7).

Esse manejo correto da palavra de Deus implica em uma atitude na qual a Bíblia é ensinada por todas as formas possíveis (pregação, música, aulas, palestras, conversas, literatura, etc) e em todas as situações possíveis (púlpito, escola dominical, conferencias, acampamentos, grupos familiares, bate-papos informais, reunião de liderança, visitas, etc) com o objetivo de levar o povo de Deus (homens e mulheres fiéis) a ler, compreender e viver (nunca uma sem as outras) os ensinos e a vontade de Deus. Nesse sentido, ministrar a palavra de Deus é vital no trabalho missionário, incluindo-se aqui tanto a evangelização dos que ainda não creem, como a edificação da vida cristã dos que já creem.

O trabalho missionário, obviamente, procura alcançar diversos objetivos de forma bem-sucedida, mas não pode ceder ante às leis de mercado que têm sido usadas como parâmetros de medição do sucesso ministerial pela influência do secularismo no meio cristão. As duas atitudes propostas por Paulo ao obreiro em nosso texto (apresentar-se a Deus e manejar bem a palavra) devem ser assumidas por todos nós (missionários, agências e igrejas enviadoras) como elementos que guiam e direcionam nossos conceitos e nossas práticas de um trabalho bem-sucedido.

Diante disso, ao buscar um ministério missionário bem-sucedido, devemos nos conscientizar da importância da nossa consagração pessoal a Deus e da dedicação constante à sua obra. Além disso, não podemos nunca deixar de lado a leitura, a interpretação e a vivência da palavra de Deus (a Bíblia) inundando todas as dimensões da nossa vida e do nosso entorno, dando sentido e conteúdo ao nosso ministério e missão. Se nós, missionários, queremos ser bem-sucedidos em qualquer que seja o ministério que estivermos exercendo, é muito importante levar em consideração essas duas atitudes mencionadas pelo apóstolo Paulo, sem nos esquecer também de manter um coração humilde, um sincero desejo de servir, uma permanente busca pelo aprendizado, uma ética e santidade inabaláveis. Sejamos obreiros bem-sucedidos!

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(1) VANHOOZER, K. J., STRACHAN, E. O., O Pastor Como Teólogo Público – Recuperando Uma Visão Perdida, p. 44.
(2) Nesse sentido, devemos tomar cuidado com a comum ruptura que produzimos entre o sentido bíblico que tem uma determinada palavra e o sentido que lhe atribuímos nos nossos dias. No caso da missiologia há palavras que foram esvaziadas do seu sentido bíblico para serem preenchidas com conceitos atuais. Por exemplo, a palavra “nações (etnia)”, especialmente no caso de Mt 28.19, é usada com o atual conceito antropológico-cultural e não com o seu conceito natural e originalmente bíblico. Vale a pena conhecer o trabalho de Marcus Borg quanto a isso (Speaking Christian: why christians words have lost their meaning and power – and how they can be restored).
(3) HENDRIKSEN, G., 1 y 2 Timoteo y Tito, p. 295, 296.
(4) HENDRIKSEN, G., 1 y 2 Timoteo y Tito, p. 295.
(5) STOTT, J. R. W., A Mensagem de 2 Timóteo, p. 58.
(6) Para uma abordagem mais ampla sobre a necessidade de equilíbrio entre teologia e pastoral, incluindo a missão, veja: VANHOOZER, K. J., STRACHAN, E. O., O Pastor como Teólogo Público – Recuperando Uma Visão Perdida.
(7) KELLY, J. N. D., I e II Timóteo e Tito, p. 169.

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